Março 2026 - #2 Apitongaxabano
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- há 1 dia
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No substack: esFOAMeados No patreon: esFOAMeados Em podcast: Hipótese Nula

TABELA DE CONTEÚDOS
SINOPSE
🎂 Nata da nata
- Canabinóides --> Pouca ou nula evidência como tratamento primário de várias P. psiquiátricas (Lancet Psychiatry)
🍰 Nata
- TEV --> No TEV agudo sintomático, apixabano venceu rivaroxabano pela segurança!! (COBRA, NEJM)
- Trombocitopénia QT-Induzida --> Romiplostim (agTPO) aumentou plaquetas...mas mais EAs/morte? (RECITE, NEJM)
- Ins. Resp. Parcial --> HFNC não muito melhor que oxigenoterapia convencional (SOHO, NEJM)
- IC --> Doentes com carcinoma IV terminal (1/3 morreram em 1M), terapêutica de IC sem benefício (EMPATICC, EHJ)
- aGLP1 --> Suspender fármaco aumentou resíduo gástrico...sem mais aspirações (OCULUS, JAMA Internal Medicine)
- Escabiose --> Ivermectina PO inferior a permetrina tópica (BMJ)
- Trauma pré-hospitalar --> Transfusão de sangue total sem vantagem (SWiFT, NEJM)
🧐 Observações
- Primários: Precauções de contacto para SAMR (CID)
- Casos e séries: DRC e vírus JC ; Granulomatose c/ poliangeíte e ulcera facial isolada - DDx ; FC de dx no Adulto - PAC de repetição ; Colite ulcerosa refractária e O2Hiperbárico ; Linfoma plasmablástico colónica sob colite ulcerosa de dx postmortem ; Tamponamento cardíaco por Entamoeba Histolytica não-endémica ; DRESS "sequencial" grave ; Aortite infecciosa - secondária a GEA (AIM)
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REVISÕES SISTEMÁTICAS de ECAs

Psiquiatria
54 ECAs; n=2477; GRADE, Ovid MEDLINE/PsychINFO/CENTRAL/Cochrane/Embase 1980–2025;
P — P. psiquiátricas ou P. consumo e substâncias (PCS): cocaína, opioides, ansiedade, psicose, PTSD, anorexia, autismo, tics/Tourette, insónia, ...
Basal: ~33 anos; 69% homens | CBD (24), THC (18), THC+CBD (12) | ~5 semanas tto
I — Canabinóide medicinal (THC, CBD, combinações, sintéticos) como tratamento primário
C — Placebo ou outra terapêutica activa.
O » Sem efeitos significativos em ansiedade, anorexia nervosa, psicose, PTSD e P. por opioides
» Dados insuficientes para PHDA, D. Bipolar, POC e tabagismo e ausência de ECAs na depressão
» PCS: CBD+THC – ↓ abstinência (SMD −0,29; IC95% −0,57 a −0,02) e ↓ consumo semanal (−1,00 g; −1,69 a −0,30).
» Tics/Tourette: ↓ gravidade dos tiques (SMD −0,68; −1,03 a −0,34).
» Insónia: Qualquer canabinóide à ↑ tempo de sono (dispositivo: SMD 0,54; 0,14–0,95; diário: 0,55; 0,01–1,09).
» P. espectro do autismo: ↓ traços autísticos (SMD −0,36; −0,66 a −0,07).
» Cocaína: ↑ craving (SMD 0,69; 0,22–1,15).
» Mais EAs de qualquer tipo – OR 1,75; 1,25–2,46; NNTH ≈7 | Iguais EA graves ou descontinuação
» risco de viés elevado ou moderado em ~90% dos estudos (alto em 50%!)
Comentário: Esta RS é, em essência, a “versão 2026” da de 2019 do mesmo grupo: uma ou outra ilha de sinal positivo (abstinência em PCS, tiques/Tourette, insónia, alguns desfechos em autismo), mas em mar de evidência fraca, heterogénea e com risco de viés alto. A mensagem é que o entusiasmo regulatório e comercial com canabinóides continua muito à frente dos dados: para a maioria das indicações (ansiedade, depressão, PTSD, psicose, cocaína/opioides/tabaco) não há benefício convincente (para não falar de eventual malefício na P. de consumo de cocaína) e, para as poucas com sinal (PCS, tics, insónia, autismo), os efeitos são modestos, com certeza baixa e há mais efeitos adversos globais, mesmo que poucos e graves. Juntando a este, alerto para semelhantes ou piores problemas com a psilocibina (vide revisões sistemáticas recentes – uma delas passou por aqui há uns tempos).
Conclusão: Não há evidência convincente para a utilização de canabinóides como tratamento primário de doença psiquiátrica.
ENSAIOS CONTROLADOS E ALEATORIZADOS

Cardiovascular
n=2760, aberto c/ desfecho oculto, multicêntrico e internacional (32 centros Canadá/Austrália/Irelanda), 3 meses
P —TEV agudo sintomático: TEP ou TVP proximal.
Basal: ~58A, IMC~29, DFGe>50 95% | 77% TEV não-provocado, 52% TVP isolada, 48% TEP +- TVP | 16% TEV prévio, 2.7% antiplaquetários prévio
I — Apixabano 10mg bid x 7 dias » 5 mg bid
C — Rivaroxabano 15mg bid x 21 dias » 20 mg qd
O 1º » MENOS H. Clinicamente Relevante a 3M: 3,3% vs 7,1%, RRA 3.8% / NNT 26; RR 0,46 (IC95% 0,33–0,65), p<0,001
- Menos H. Clinicamente Relevante Major - 0.4% vs 2.4%, RR 0.16 (0.06–0.40)
- Menos H. Clinicamente Relevante Não-major: 2.9% vs 4.9%, RR 0.59 (0.40–0.86)
2º » Igual (e raríssima) Morte por qualquer causa: 1 (0,1%) vs 4 (0,3%), RR 0.25 (0.03–2.26)
» Igual recorrência de TEV: 1 vs 1.1, RR 1.08 (0.52–2.23)
» Iguais EAs graves não relacionados com hemorragia ou TEV: 2,7% vs 2,2%
Comentário: Este é daqueles ensaios simples, úteis e necessários: head-to-head (1º a comparar NOACs!), pergunta clínica real e com uma diferença absoluta de 3,8% em hemorragia clinicamente relevante, o que dá um NNT de cerca de 26 para evitar um evento hemorrágico relevante com apixabano em vez de rivaroxabano durante os primeiros 3 meses. O desenho PROBE não é perfeito, mas para um desfecho hemorrágico adjudicado de forma oculta é bastante aceitável, e o tamanho do efeito foi bastante grande. A limitação prática é que na janela temporal curto que temos, a recorrência tromboembólica pode ainda não ser nítida, pelo que a única conclusão é muito menos eventos hemorrágicos a curto-prazo.
Conclusão: No TEV agudo, apixabano mais seguro e igualmente eficaz a 3 meses
Dermatologia
n=1075, oculto p/ assessores. multicêntrico cluster (142 vs 147 agregados familiares), França, 2016-2021.
P — Adultos/crianças >15 kg com escabiose clássica confirmada por dermatoscopia
I — Ivermectina oral 200 µg/kg dias 0 e 10 (crianças <15 kg: permetrina tópica).
C — Permetrina 5% creme corpo inteiro (cabeça aos pés) dias 0 e 10.
O 1º » PIOR cura clínica do cluster (agregado familiar completo) no D28: 71,8% vs 88,5%, −16,7 %. (IC95% −26,3 a −7,1).
2º » Pior cura do caso‑índice: 76,6% vs 91,5%, diferença −14,9 p.p. (IC95% −23,6 a −6,2).
» Pior cura individual: 85,3% vs 94,2%, diferença −9,2 p.p. (IC95% −14,9 a −3,5).
» Menos EAs cutâneos: 11,9% vs 15,6%.
Comentário: Este é o primeiro grande cluster-ECA a comparar directamente ivermectina oral vs permetrina tópica na escabiose clássica confirmada por dermoscopia — e o veredicto é claro: permetrina esmaga a ivermectina em cura aos 28 dias, tanto no cluster familiar (71,8% vs 88,5%) como no índice individual, falhando a não-inferioridade e até mostrando inferioridade. O desenho por agregados familiares é essencial para escabiose (transmissão intradomiciliar brutal), e a confirmação dermatoscópica evita diluição com falsos positivos. A ivermectina oral, apesar da facilidade logística, fica aquém — talvez por menor penetração tecidual ou resistência emergente — enquanto permetrina mantém o padrão ouro, mesmo com mais EAs cutâneos leves. Limitações: França (prevalência baixa?), sem ocultação total (cluster pragmático), e foco em “escabiose clássica” (sem “escabiose de crostas/norueguesa”). O recado é simples: permetrina 5% em duas aplicações é mais eficaz para sarna familiar.
Conclusão: Permetrina 5% creme é superior a ivermectina oral para cura de escabiose clássica.
Doente crítico/urgente
n=1110/1116 (de 4070), aberto, multicêntrico (42 UCIs francesas), 2021-2024, financiamento misto
P — Ins. respiratória hipoxémica + PaO2/FiO2 ≤200 c/ >10L/min e FR >25/min + infiltrado pulmonar imagiológico
Excluídos: hipercápnia, DPOC/asma, EAP, GCS<12, instabilidade HD, EOT emergente, DNI, extubação recente, pós-cx
Basal: ~62A, 22% IDep | PAC 88% » ~100% viral (46% COVID), 30% bact, 3% fúng | SOFA~2, P/F~132, pH~7.45, TA~13/9, FC~90 | GCT 62%
I — Oxigénio por cânula nasal de alto fluxo (HFNC) ≥50 L/min, FiO2 para SpO2 92–96%, ≥48 h antes de desmame
C — Oxigénio habitual máscara facial / cânula convencional para SpO2 92–96%
O 1º » IGUAL mortalidade aos 28d: 14,6% vs 14,6%, dif. −0,05% (IC95% −4,21 a 4,10), p=0,98
2º » Menos? EOT até ao D28: 42,4% vs 48,4%, dif. −5,93% (IC95% −11,78 a −0,08) → NNT≈17 mas valor p?
» Mais? dias livres de ventilador no D28: ~ 28d vs 26d, dif. 2d (0–4).
» Menos? FR aos 60min - 26 vs 29/cpm, dif. −3.0 (−3.8 to −2.2)
» Pior? PaO2/FiO2?? – 120 vs 144, dif. −24 (−30.0 to −18.0)
» Igual dispneia (dyspnea score) – 25 vs 20 / Mais? alívio de dispneia percebida - 50% vs 35%
» Mais? PCR ou (++)pneumotórax em respiração espontânea: 2,3% vs 1,1% (3+10 vs 2+4 doentes)
Comentário: Em 2015, ficámos a conhecer os resultados do FLORALI, um pequeno ensaio de cerca de 300 doentes onde a inovadora máquina de oxigénio de alto fluxo (HFNC) demonstrara reduzir mortalidade apesar de não reduzir EOT. Entretanto, nos ensaios seguintes (incluindo SOHO-COVID), essa diminuição de mortalidade não foi revalidada e o sinal parece ser até o contrário: talvez menos VNI e VM mas igual mortalidade. O SOHO é o 1º grande ensaio e volta a contrariar o ultrapassado FLORALI: mortalidade aos 28 dias igualzinha, mas uma pequena redução na taxa de EOT com HFNC com um teórico NNT de 17, que não é desprezível, mas também não é mágico e não foi feita análise estatística com valor p. A aleatorização sem ocultação pode empurrar um pouco este efeito (médicos mais “relaxados” para adiar EOT em quem está com HFNC), pelo que é difícil saber quanto disto é fisiologia real vs viés de decisão. Também há um ligeiro aumento numérico de PCR/pneumotórax em respiração espontânea no braço HFNC, o que levanta a velha suspeita de “lesão pulmonar auto-infligida” (P‑SILI) em doente muito taquipneico mantido demasiado tempo fora do ventilador. Por último, estranhamento, há até diferença numérica para pior PaO2 com HFNC…o que seria a variável directamente influenciável caso acreditemos nesta técnica. No fundo, HFNC volta a aparecer como ferramenta útil para conforto e, talvez, para evitar algumas entubações, mas não como “arma salva-vidas” — e com a ressalva forte de que exige monitorização apertada e limiares claros para não prolongar uma batalha infrutífera com a gestão da oxigenoterapia.
Conclusão: Na insuficiência respiratória hipoxémica aguda moderada‑a‑grave, HFNC reduziu EOT mas não reduziu mortalidade e pode piorar PaO2 aumentar EAs.
n=616/942 (após exclusões), pragmático, aberto, multicêntrico em 10 serviços de helicóptero de Inglaterra, 2022-2024.
P — Trauma maior + hemorragia grave (“life-threatening hemorrhage”), atendidos por air ambulance.
Excluídos: Hemorragia não traumática ou paragem cardíaca traumática (≈25% dos aleatorizados).
Basal: Maioria com trauma grave pré‑hospitalar (Politrauma dominante) e choque hemorrágico.
I — Sangue total pré‑hospitalar (até 2 unidades de “sangue total depletado de leucócitos”).
C — Cuidados habituais (até 2 UCE+ 2 UCP).
O 1º » IGUAL morte ou transfusão massiva (≥10U) às 24h: 48,7% vs 47,7%, RR 1,02 (IC95% 0,80–1,31), p=0,84
2º » Igual morte em qualquer momento | Igual Transfusão massiva
» Mais PTT prolongado: 40,7% vs 30,5%.
» Semelhantes EAs graves – 31 vs 37 eventos – e eventos trombóticos
Comentário: SWiFT é o primeiro grande ECA pragmático pré‑hospitalar a testar sangue total vs componentes na hemorragia traumática grave — e o veredicto é um “meh” definitivo: nenhum benefício no composto primário (morte ou transfusão massiva às 24 h), apesar do entusiasmo com dados observacionais. O desenho de mundo real (ambulâncias aéreas, sem ocultação) é força para implementação, mas também abre porta a viés logístico (tempo de transporte, armazenamento no frio, logística de sangue total vs resfriadores de componentes). Mais PTT prolongado no braço sangue total é até sinal de coagulação “menos optimizada” que plasma + UCE/UCP, mas sem mais trombose ou pior segurança global. Num mundo onde sangue total é mais simples de dar (1 bolsa vs múltiplas) mas caro/complexo de manter no frio no pré‑hospitalar, o SWiFT veio mostrar que não vale a pena complicar a cadeia de fornecimento para ganhos nulos - fica para estudos maiores ou subgrupos (penetrante vs contuso? choque profundo?)?
Conclusão: Sangue total pré‑hospitalar não é superior a componentes convencionais na hemorragia traumática grave.
Geral, Geriatria & Paliativos
n=93, mITT, duplo-oculto (30d) + extensão aberta (30d), 5 centros na Alemanha, 30 dias
P — Tumores sólidos IV sob CP c/ EMV 1–6M + IC c/ ≥2 FR CV e ≥1FR Funcional
Basal: 72% sob oncoterapêutica, ~98% ECOG, 42% c/ dep. na higiene| Hb~10 g/dL, FEVE~58%, DFGe~62–6
I — “Terapêutica optimizada de IC” de até 4 fármacos: sacubitril/valsartan, empagliflozina, ivabradina e CMF
C — Placebo, em cima dos cuidados habituais
O 1º » IGUAL desfecho hierárquico (dias vivo e capaz de lavar, andar 4m e bem-estar) - win ratio 0,95 (IC95% 0,57–1,58), p=0,83O
2º » Igual mortalidade aos 30 dias - 32%
» Depois dos 1os 30d: Menos NTpBNP −41%, | Mais FEVE +2,9% | Melhor “Bem-estar”, OR 0,22 (IC95% 0,06–0,75), p=0,016
Comentário: Este ensaio prova, em 1º lugar, que é possível fazer ensaios ambiciosos nos cuidados paliativos. Claro que peca por amostra pequena e selecção curta de fármacos de IC (não incluíram BB nem ARM – preferiram ivabradina a BB por motivos que não me convencem totalmente e não incluíram ARM pelo alegado motivo de monitorizar potássio que tampouco me convence, sobretudo num ensaio nesta população). Na análise “crua” dos primeiros 30 dias, a terapêutica de IC não melhorou qualidade de vida ou sobrevida. Depois, há resultados “favoráveis” apresentados nos sobreviventes aos 30 dias, mas que são, por definição, análises de subgrupo exploratórias, altamente vulneráveis a viés de sobrevivência. Há ainda outros detalhes como o facto de 27 de 93 (muitos!) terem suspendido IECA/ARA pouco antes da aleatorização para permitir potencial uso de sacubitril/valsartan, o que tem claras implicações de selecção e desempenho. Com tudo isto, não esquecer que falamos de uma população de cancro terminal em que 1/3 dos doentes morreu em 1 mês – cuidado com extrapolações.
Conclusão: Em doentes com carcinoma sólido estádio IV terminal, terapêutica de IC pode não ter grande relevância a curto-prazo.
n=60 (análise interina pré-planeada), ocultação parcial, 2 centros terciários nos EUA
Ensaio suspenso precocemente por cruzar o limite de O’Brien-Fleming.
P — aGLP‑1/GIP há ≥1 mês + agendados para EDA +- EDB c/ sedação moderada
Excluídos: SP cirurgia TGI alto, acalásia, gastroparesia, resíduo gástrico prévio, obstrução de saída gástrica, anestesia geral ou uso de opióides
I — Continuar o aGLP-1/GIP
C — Suspender 1 dose pré‑procedimento (semanal ou diária).
O 1º » MAIS Volume residual gástrico (VRG) significativo* - 25,0% vs 3,1%; ARA 21,9% (7,0–36,7); p=0,003 / NNH ≈5
*conteúdo que impede EDA, obriga a terminar cedo/intubar ou leva a aspiração com vigilância prolongada/terapêutica/admissão
O 2º » Subgrupo EDA apenas (n=35): Mais VRG significativo - 46,7% vs 5,0%; ARA 41,7% (IC90% 17,9–65,4); p=0,001.
Subgrupo EGD + EDB (n=25, líquidos claros dia anterior): Igual - 0% - VRG em ambos
» Sem aumento de eventos de aspiração clinicamente relevantes
Comentário: Este é o primeiro ECA decente a testar directamente a dúvida GLP‑1 no peri‑EDA: se continuarmos o fármaco sem mexer muito na preparação, aceitamos um NNH na ordem dos 4–5 para maior volume residual gástrico, mas, mais importante, sem sinal para mais aspiração (nesta população saudável e em ambiente de ensaio!). O desfecho é um composto centrado no fluxo e segurança do procedimento, não em desfechos duros e o ensaio é pequeno e foi suspenso precocemente, pelo que o recado é mais logístico do que outra coisa. O subgrupo com colonoscopia e líquidos claros no dia anterior não teve VRG significativo, sugere que a estratégia de dieta/jejum pode ser tão ou mais importante que a restrição no fármaco. Em cima dos dados observacionais que já apontavam para mais conteúdo gástrico sem mais aspiração, o OCULUS reforça a ideia de que GLP‑1 atrasam mesmo o esvaziamento, mas ainda não provaram que isso cause impacto clinicamente significativo.
Conclusão: Continuar GLP‑1 / GLP‑1+GIP antes de EDA aumentou o conteúdo gástrico mas sem mais aspirações.
Imuno-mediadas
n=303, duplo-cego, multicêntrico em 14 países, 52 semanas.
P —LES activo sob tto standard estável + Sem nefrite lúpica proliferativa ou membranosa
Basal: SLEDAI-2K ≥8, PGA ≥1, BILAG A em ≥1 sistema ou B≥2; Complemento baixo
I — Obinutuzumab (anti-CD20) 1000mg EV no dia 1 e nas semanas 2, 24 e 26
C — Placebo nas mesmas tomas
O 1º » MELHOR SRI-4 às 52 semanas: 76,7% vs 53,5%, dif. ajustada 23,1%; RRA 23,2% / NNT 5, p<0,001
- Análise adicional s/ eventos intercorrentes não-fatais: 85,4% vs 68,5%, dif.ajustada 16,8%; RRA 16,9% / NNT 6 2º » Melhor em BICLA, desmame de glucocorticoides, SRI-4 e SRI-6 sustentado e tempo até 1º flare
» Mais EAs - 88,7% vs 81,5% - e EAs graves: 15,9% vs 11,9% - mas igual descontinuação – 2%
- Infecções (incluindo graves – quais?) e Neutropenia
» Iguais e raras mortes: 1 vs 3
Comentário: O Obinutuzumab já tinha demonstrada eficácica na nefrite lúpica (NOBILITY e REGENCY), mas faltava sabermos resultados no LES. O efeito no desfecho primário foi grande e, ao contrário de muito estudo em lúpus que morre na praia dos compostos, aqui também os secundários principais alinharam todos na mesma direcção, o que dá mais credibilidade ao sinal primário. Mas continua a haver um problema clássico de desfechos em LES: SRI-4 e BICLA são desfechos compostos por várias coisas, úteis para aprovação regulatória, mas, ainda assim, um passo ao lado do que mais interessa ao doente, como dano orgânico acumulado, internamentos, qualidade de vida e sobrevida. Na segurança, também não dá para vender inocência total quando houve mais EAs e mais EAs graves com obinutuzumab, num estudo com apenas 303 doentes e claramente não desenhado para segurança.
Conclusão: No LES ativo sem nefrite proliferativa ou membranosa, obinutuzumab em cima da terapêutica habitual melhorou resposta às 52 semanas mas mais EAs.
Oncologia
n=165, duplo-cego, multicêntrico e internacional - 55 centros em 14 países, financiamento Amgen
P — Trombocitopénia QT-induzida (CIT) persistente c/ plaquetas m D1 + QT baseada em Oxiplatina para Cancros TGI
Basal: 75% colorretal, 13% gastroesofágico, 12% pancreático ; Plaquetas ~69, <50 em 10% ; Estadio IV 72% (I) vs 61% (C)
I — Romiplostim (agonista TPO) 1x/semana até plaquetas>100 -> QT se alvo há 4S
C — Placebo 1x/semana
O 1º » MENOS modificações da QT (ciclos 2 e 3): 84% vs 36%, RR 2,77 (IC95% 1,78–4,30), p<0,001
O 2º » Melhor resposta plaquetária (≥100 s/ UCP há 7d) – 97% vs 77% - e mais rápida – 1S vs 2S, p<.001
» Mais mortalidade? - 53% vs 45%, hipotéticos ARA 8% / NNH 13
» Mais EAs grau - 37% vs 22%
» Equivalentes/mais? EAs considerados relacionados com fármacos - 12% vs 7%
» Nenhuns EAs graves ou descontinuações
» Equivalentes/mais? Eventos tromboembólicos: 2% vs 0%
Comentário: O sinal é forte, mas convém não vender isto como “benefício clínico” quando o desfecho primário é sobretudo logístico-oncológico: conseguir manter dose/plano de quimioterapia. No entanto, não houve redução de eventos adversos (até sinal para o contrário!) e, pior que tudo, preocupante sinal para maior mortalidade. Podemos argumentar que, pelo menos, ficou provado que o fármaco funciona in vitro. Mas até aí não me parece um estrondo: quase 80% dos doentes com placebo atingiram o alvo, pelo que existe clara (e expectável) regressão à média. Por outro lado, fico muito preocupado com o real desempenho in vivo – gostaria de ver melhor escrutinadas as causas de morte e ver análise de mortalidade daqui a uns anos para perceber se mais doentes tratados com QT contrabalançará no futuro este sinal para mais mortalidade, mas, sobretudo, gostaria de ver ECA com muito mais doentes para eliminar os desequilíbrios como muito mais doentes estádio IV com o romiplastim.
Conclusão: Romiplostim funciona, mas regressão à média na maioria e sinal para mais eventos adversos e mortalidade.
ESTUDOS OBSERVACIONAIS

PRIMÁRIOS - SUB-ANÁLISE / COORTE / CASO-CONTROLO / INQUÉRITOS / A. ECONÓMICAS
Infecciologia, Microbiologia & Antimicrobianos
n=905.164 internamentos, observacional transversal, 121 hospitais (VA, EUA), 2020–2022
Introdução: Há anos que se discute se as precauções de contacto (PC) valem o investimento, especialmente quando a realidade é hospitais cheios, equipamento escasso e compliance variável. A pandemia obrigou muitos hospitais do VA a suspender parcial ou totalmente estas práticas — o que constitui uma espécie de ensaio não aleatorizado à escala de sistema.
Métodos:
· População: 121 hospitais agudos do VA; todos os internamentos entre 07/2020 e 06/2022.
· Exposição: políticas de SAMR por hospital/mês — vigilância activa (AS) ou PC reportadas em inquéritos nacionais; muitos hospitais suspenderam ≥1 componente e mais tarde reinstauraram.
· Desfecho primário: MRSA healthcare‑associated infections (HAI), definidas como culturas positivas incidentes ≥3 dias após admissão.
· Desfechos secundários: infeções em locais estéreis e culturas positivas até 30 dias pós‑alta.
· Modelos: Poisson, binomial negativa e Poisson com efeitos mistos a nível de instituição/ward, ajustando para carga basal de SAMR, intensidade de colheitas, admissões COVID e características hospitalares; risco competitivo de morte considerado nas análises de incidência.
Resultados:
· Entre 905.164 admissões, identificaram-se 1.708 culturas SAMR incidentes.
· “Modelos simples” (menos ajustados) sugeriam aumento de SAMR quando se descontinuavam medidas
· Após ajuste para carga basal de SAMR e outros fatores, estas associações atenuaram-se substancialmente; nos modelos de efeitos mistos não houve associações significativas entre parar (ou manter) medidas e taxas de MRSA HAI.
· Os resultados foram consistentes nos desfechos secundários (locais estéreis, pós‑alta).
Comentários: Este artigo é, em versão 2026, mais um capítulo no debate sobre “PC para SAMR para todos sempre?” — e é interessante porque vem do mesmo universo VA onde estudos anteriores tinham mostrado redução de SAMR com política agressiva de vigilância + PC. Aqui, aproveitando as variações forçadas pela COVID, a mensagem é muito mais morna: quando se ajusta a sério para carga basal e características da instituição, não se vê um aumento robusto e consistente de MRSA HAI associado a relaxamento das práticas.
n=1639, estudo transversal multicêntrico, 4 países (Filipinas, Vietname, Uganda, Zâmbia), 2024–2025
Introdução: Esfregaço da língua é uma alternativa promissora para diagnóstico de TB: especificidade geralmente >98%, mas sensibilidade inferior aos testes moleculares em escarro. A questão aqui não é se o esfregaço é mais sensível, mas se a sua maior aceitabilidade (quase todos conseguem dar) pode resultar em rendimento diagnóstico global semelhante ao escarro.
Métodos:
· População: consecutivos com TB presumível em centros de saúde dos 4 países.
· Amostras: todos foram convidados a fornecer esfregaço de língua; o escarro foi colhido de rotina, conforme prática local.
· Testes: esfregaço testado em laboratórios de investigação com MiniDock MTB (Pluslife Biotech, China); escarro testado com testes moleculares OMS (ex. Xpert Ultra) segundo guidelines nacionais.
· Rendimento diagnóstico: % de testes positivos em todos os participantes (incluindo os que falharam escarro).
· Não-inferioridade: margem pré-definida de 3,0% de diferença absoluta.
Resultados:
· Dos 1639 - 51,9% mulheres, 25,3% com VIH, 8,1% crianças <5 anos.
· Esfregaço da língua possível em 100% vs só 84,7% (1389) produziram escarro.
· Rendimento: 3,8% (63/1639) para esfregaço vs 4,1% (68/1639) para escarro.
· Diferença: 0,3% (IC95% −0,6 a +1,2) — dentro da margem de não-inferioridade (3%).
· Consistente entre países e subgrupos (idade, sexo, VIH).
Comentários: Esfregaço de língua com MiniDock MTB “empatou” com o diagnóstico por microbiologia molecular do escarro, graças à taxa de amostras obtidas muito superior (100% vs 85%). Para centros de saúde em países de alta carga onde falhar o escarro é comum — e microscopia de esfregaço ainda domina — isto é um argumento forte para escalar plataformas de esfregaço da língua baratas e POC. Limitações: testes em lab de investigação (não POC real), sem referência microbiológica para confirmar TB verdadeira e população só de suspeitos ambulatoriais. Ainda assim, é um passo útil para ajudar falhas diagnósticas onde o escarro falha.
CASOS CLÍNICOS e SÉRIES DE CASOS
Dermatologia
Caso bastante típico mas com o alerta: apesar de reacção tardia (T-induzida), a janela pode ser curta.
Gastroenterologia & Hepatologia
Hyperbaric Oxygen for Refractory Colonic Ulcerations in a Patient With Immunotherapy-Induced Colitis | AIM
Alegado 1º caso de sucesso de terapia de oxigénio hiperbárico. Sou bastante céptico, gostaria de ver esta terapêutica provada em ECAs robustos e não apenas em casos isolados, mas aqui, alegadamente, a melhoria foi exuberante e fica mais difícil de acreditar que terá sido tudo regressão à média / resposta tardia ao restante tratamento - mas pode ser!
Hematologia
Colonic Plasmablastic Lymphoma Exhibiting Unique Endoscopic Phenotypic Changes During UC Therapy | AIM
Caso curioso mas infelizmente catastrófico. As úlceras mudaram de características, o que poderia ter alertado para algo de incomum a acontecer. Infelizmente, só na autópsia se percebeu que era uma transformação em LPB.
Imuno-mediadas
Discussão engraçada sobre diferencial de úlcera facial isolada grave: policondrite recidivante (era peri-auricular)? pioderma gangrenoso? síndrome de sweet? Acabou por ser assumida GcP pois ANCA e PR3 positivo e boa resposta a terapêutica, mas a mim, que não sou "da área", não me parece assim tão linear.
Infecciologia, Microbiologia & Antimicrobianos
Fico a saber que DRC pode ser factor de imunosupressão de risco para o vírus JC...embora o achado imagiológico não tenha sido muito típico...(lesão única e não múltipla, apesar de atípica e fazer suspeitar VJC depois de revista).
Diagnóstico raro e muitas vezes indolente mas potencialmente vira catástrofe grave. Nesta caso sem viagens recentes a locais endémicos, apenas viagem ao México 6 anos antes - suficiente para alojamento do bicho e explosão tardia?
As aortites infecciosas complicadas são muito tramadas de tratar. Nestes 2 casos - agentes GEA, os principais, seguidos de gram positivos - os doentes acabaram a fazer antibioterapia supressiva porque nenhum cirurgião quis intervir. Difícil.
Pneumologia
Adult Diagnosis of Cystic Fibrosis: A Cause of Recurrent Pneumonia | AIM
Não cruzar os braços! Neste caso com pneumonias quase anuais desde os 9 anos de idade algo teria de se passar. A esteatose pancreática foi mais um dado de suspeição e, como se previa, a doente tinha mesmo fibrose quística.
FOAMed

Imuno-mediadas
Resumo fascinante e interessantíssimo sobre diferenças entre PCR e VS e ligação a patologias (como LES vs AR)
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