Abril 2026 - #1 Bactérias amigas!
- esFOAMeados Portugal
- há 1 dia
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No substack: esFOAMeados No patreon: esFOAMeados Em podcast: Hipótese Nula

TABELA DE CONTEÚDOS
SINOPSE
🎂 Nata da nata
- Cirurgia colorectal --> Avaliação intraOP de perfusão reduz fístulas (+rectais/baixas e esquerdas) (Lancet G&H)
🍰 Nata
- Cirurgia colorectal --> Excisão transanal não-inferior a laparoscópica a curto-prazo (COLOR III, Lancet G&H)
- Gota --> Tratamento para alvo de uricémia <6mg/dl com menor recorrência (GO TEST Overture, Lancet Rheuma)
- Dengue --> Libertação de mosquitos infectados estéreis reduziu muito o dengue em Singapura! (NEJM)
- Quimioterapia --> Dor óssea pós-pegfilgrastim mt/ reduzida se administração pós-72h (vs 24h ou 48h) (AIM)
- ETE --> ETE na PCR para vigiar se compressões causam obstrução da VAo foi um "meh" (EXECT-PCR, JAMA IM)
- Choque séptico --> Polimixina B para neutralizar endotoxinas diminuiu muito mortalidade...será? (Tigre, Lancet RM)
- AVCi --> Pós-trombectomia: Extubação às 6h vs 12h meio indiferente (EDESTROKE, JAMA Neurology)
- UCI --> Restrição de movimentos em doentes c/ VM sem benefício (R2D2, JAMA)
🧐 Observações
- Revisões sistemáticas: Vasopressores por via periférica e EAs + evicção de CVC (JAMA NO) |
- Primários: Rezafungina e clearence de candidémia ; Endocardite e PET para controlo de foco ; Erros de transição hospital-domiciliário (OPAT ou outros) (OFID) | Clopidogrel vs AAS a 10 anos (Lancet)
🌎FOAMed
Nefropatia IgA (NephJC - Guideline) | HipoNa: Na/OsmU depois de fluidos + Risco de sobrecorrecção (baixo, de novo) (PBF) | Obstrução dinâmica do tracto de saída do VE ou "LVOTO" (First10EM)
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REVISÕES SISTEMÁTICAS de ECAs

Cirurgia, Ortopedia & MFR
9 ECAs / n = 4.754; Pesquisa extensa e metodologia GRADE, ECAs até Jul 2025
P — Doentes submetidos a ressecção colorretal com anastomose primária
I — Avaliação intraoperatória de perfusão com indocianina verde (ICGFA) + avaliação habitual do cirurgião
C — Avaliação habitual isolada (sem ICGFA)
O » Menos Anastomose c/ fístula global: RR 0,66 (0,56–0,78), p<0,0001; NNT 24; TSA c/ info. necessária excedida (2183)
» Menos Fístula que exige intervenção (clínica, reoperação, drenagem): RR 0,73 (0,60–0,89), p=0,002; NNT 39
» Menos Fístula assintomática/não intervencionada: RR 0,48 (0,31–0,72), p=0,0004; NNT 35
» Benefício de Resseções esq. - RR 0,62 (0,51–0,74), NNT 19 - Recto: RR 0,62 (0,51–0,76), NNT 19 - Baixa anterior: RR 0,62 (0,48–0,79), NNT 13
» Sem benefício claro em ressecções direitas
» Meta-regressão: maior protecção com IMC mais alto (coef −0,02; −0,03 a −0,01; p=0,002)
» Evidência alta p/ fístula global, esquerda, recto, assintomática e aos 30d / moderada p/ fístula clinicamente sign.
Comentário: Este trabalho sobe a fasquia relativamente às metas anteriores (muita coorte, pouco ECAs) e prova que é possível artigos de alta qualidade no campo cirúrgico. Neste caso, temos 9 ECAs, tamanho de informação ultrapassado e efeito consistente da ICGFA em anastomoses esquerdas/rectais, onde o problema é mais crítico. O detalhe interessante (e plausível) é o maior benefício em doentes com IMC mais elevado, precisamente o grupo em que perfusão marginal e técnica são mais desafiantes. Por outro lado, a ausência de certeza de efeito em ressecções direitas sugere que a fístula cecocólica/ileocólica é menos perfusão‑dependente (ou simplesmente rara e, consequentemente, pouco poder estatístico para se chegar a algum resultado). Ainda faltam dados granulares sobre custos, curva de aprendizagem e como integrar ICGFA num pacote de prevenção (técnica, altura da anastomose, protecção com estoma, antibiótico oral), mas a barra da evidência de eficácia per se, em esquerda/recto, parece ultrapassada.
Conclusão: Em resseções colorretais esquerdas e, sobretudo, rectais/baixa anterior, a ICGFA intraop reduz as fístula ansastomóticas.
ENSAIOS CONTROLADOS E ALEATORIZADOS

Cirurgia, Ortopedia & MFR
n=1061 (711 TaTME, 350 LapTME), aberto, multicêntrico internacional (28 hospitais), 2017-2024.
P — ADC rectal médio/baixo (≤10 cm borda anal) cT1-3N0-2M0 +- RT/QT NeoAdj
I — TaTME (transanal total mesorectal excision)
C — LapTME (laparoscopic TME)
Assessores de Qualidade: Vídeo-competência pré-ensaio, comité central para elegibilidade.
O 1º » sinal para NÃO-INFERIORIDADE em Recorrência local a 3 anos (pendente, follow-up a decorrer).
2º » Menor Conversão para cirurgia aberta a 90 dias: 1% vs 17% (OR 0,03, IC95% 0,01-0,08).
» Igual Morbilidade a 90d: 20% vs 18% (OR 1,22, IC95% 0,90-1,64).
» Igual Fístula anastomótica a 90d: 10% vs 8% (OR 1,32, IC95% 0,83-2,08).
» Igual Ressecção completa macro a 90d: 84% vs 86% (OR 0,94).
» Semelhantes margens de ressecção (CRM+/DRM+) a 90d: 1% vs <1%.
Comentário: Este COLOR III é o primeiro grande ensaio aleatorizado e controlado de fase 3 internacional a comparar cirurgia transanal com laparoscópica (TaTME vs LapTME) no ADC rectal médio/baixo, com desfechos a curto-prazo a mostrar que TaTME dominou com muito menor conversão a cirurgia aberta (1% vs 17%, OR 0,03) sem penalizar morbilidade, fístula ou qualidade da ressecção (CRM/DRM positivos raros). A TaTME facilita dissecção distal e anastomoses baixas (teórica menor necessidade de colostomia permanente), mas ainda precisamos de conhecer melhor os desfechos a longo-prazo (recorrência 3 anos). Este ensaio teve desenho robusto (2:1, estratificação, qualidade centralizada) e estudou população real (com/sem RTQT). Limitação: aberto, follow-up curto. Se o desfecho primário for mesmo não-inferior a 3 anos, TaTME poderá passar a cirurgia de 1ª-linha para cirurgia distal do recto.
Conclusão: A curto-prazo, TaTME foi segura e superior em conversão vs LapTME ño ADC rectal médio/baixo.
Doente crítico/urgente
n=405 / 396 c/ desfecho 1º, aberto, multicêntrico (10 UCIs francesas), 2021–2024, financiamento público
P — VMI há ≤6h c/ expectativa de ≥48 h + s/ delirium, demência ou d. neurológica grave
I — Contenção restritiva (baixa utilização): apenas se agitação grave (RASS ≥+3) + revisão diária e suspensão se vígil/extubado s/ delirium
C — Contenção liberal (alta utilização): braçadeiras sistemáticas + revisão diária e possibilidade de suspensão se vígil/extubado s/ delirium
O 1º » IGUAIS Dias vivos sem coma ou delirium aos 14 dias: 6,67 vs 6,30 dias; dif. 0,37 dias (IC95% −0,71 a 1,46), p=0,51
O 2º » Igual auto-extubação: 9,2% vs 8,5%, RR 1.11 (0.59 a 2.07)
» Igual Mortalidade aos 90 dias: 37,2% vs 41,0%, RR 1 (0.72 a 1.40)
» Iguais delirium, dias livres de VM, tempo de UCI/hospital, funcionais/cognitivos/psicológicos aos 90d
Comentário: R2D2-ICU (dos melhores nome de sempre) testou uma pergunta desconfortável mas crucial: tirar braçadeiras de contenção muda alguma coisa para delirium/coma? A resposta, pelo menos neste ensaio bem desenhado, mas pequeno, é um redondo “não”: dias livres de coma/delirium iguais, delírio global igual, auto-extubação igual, mortalidade e desfechos longos idênticos. Em contexto de normas estruturados (sedação, delirium, mobilização), simplesmente mexer nas contenções não chega para mudar desfechos. O ensaio também sugere que uma estratégia restritiva pode ser implementada sem mais auto‑extubações significativas ou outros desastres, o que desmonta o argumento do medo que sustenta contenções sistemáticas. Ficam por medir os domínios que interessam mais ao doente – experiência subjectiva, sofrimento, sensação de violência – onde a balança provavelmente penderia a favor da estratégia de baixa utilização, sobretudo em ensaio aberto. Acho que ainda poderíamos ter outro ensaio maior e multicêntrico para nos dar mais certeza de que o sinal para mais auto-extubação e menos mortalidade não seja sinal, mas, por enquanto, parece-me que ficamos confiantes que a estratégia liberal (ou não!) não é o caminho.
Conclusão: Em doentes ventilados em UCI, usar braçadeiras de contenção nos braços por sistema não melhorou (nem piorou) desfechos.
n=132, cluster com cross-over (11 clusters/26 blocos planeados), 1 centro terciário Taiwan, 2023
P —PCR extra-hospitalar não-traumática em curso à chegada ao SU.
Excluídos: ROSC pré-hospitalar, ECMO, contraindicação ETE, DNR, óbito
Basal: 68A, choque inicial FV/TV 20%, tempo pré-hospitalar ~30min, LUCAS no transporte 88%
I — RCP guiada por ETE pós-intubação: evitar compressão VAo, área máxima compressão (AMC) no VE; ajuste manual + fixação LUCAS (~9min após)
C — RCP convencional: compressões metade inferior esterno + correcção se deslocamento.
O 1º » IGUAL/MELHOR? ROSC sustentado ≥20min: 44% vs 39%; OR cluster-ajustado 1,21 (IC95% 0,64–2,29).
O 2º » Semelhantes ROSC, UCI/alta hospitalar, CPC ≤2 à alta
» Igual Sobrevida global (…miserável = 4%...).
» Maior EtCO2 intra-RCP em 11-20 min pós-chegada (+8,6 mmHg / pós-ajuste VAo→VE +5,1 mmHg)
» Iguais complicações
Comentário: EXECT-CPR testa hipótese fisiológica forte — ETE para evitar Vao (compressão em ~50%, pior pressões/desfechos) e centrar VE — num OHCA real com LUCAS pré-hospitalar. Resultado: ↑EtCO2 (11-20 min +8,6; AV→VE +5,1), implementação viável (κ interobservador 0,89, ajuste 36/52 pts), zero EAs extra — mas neutral em ROSC/sobrevida. O ensaio ficou com pouco poder (assumiram 54% vs 26%, real 44% vs 39% → precisavam de 4000 doentes!...), tempo tardio (média 38 min desde colapso) e população refractária (sem ROSC pré-hospitalar). Tempo pode explicar parte dos resultados: animais beneficiam se ROSC em 2-10 min, aqui já eram >50 min total em muitos. Sugestão: melhor para pessoal do pré-hospitalar treinado. No entanto, como em várias coisas do doente crítico e reanimação, temos um ECA com um número hemodinâmico bonito mas sem aparente tradução clínica; básicos (compressão qualidade, desfibrilação rápida) > gadgets.
Conclusão: ETE guiada no SU para optimizar compressões locais na PCR-EH em OHCA aumentou EtCO2 sem melhorar ROSC/sobrevida.
Imuno-mediadas
n=308, aberto, pragmático, 8 centros na Holanda, 2021-2022.
P — Adultos ≥18A com gota + hiperuricemia (>6mg/dl), sem tratamento actual.
I — Treat-to-target: titulação guiada para uricemia <6mg/dl (alopurinol 1ª linha, febuxostat/benzbromarona 2ª).
C — Symptom-driven: decisão clínico-doente baseada em sintomas, sem alvo de uricemia fixa.
O 1º » Menor Remissão em 18-24M (sem flares, sem tofos subcutâneos, dor <2/10 e PGA >8/10): 39 vs 24%; RRA 15% (6,4-24,4), p=0,024
2º » Iguais EAs: 42% vs 53% (dif −10,7%, p=0,060) / sem EAs graves
Comentário: O GO TEST Overture testou esquema treat-to-target para uricemia <6 mg/dl vs symptom-driven na gota e apontou para superioridade em remissão sustentada (39% vs 24%, NNT≈7), sem custos em segurança (pelo contrário). A magnitude do efeito dá confiança nos resultados, mas, no entanto, alerto para que foi um ensaio pequeno e sem ocultação com pouca força estatística (p próximo do 0.05). Limitações: aberto, centros de reumatologia (não primários?), sem comparações directas com doses altas alopurinol isoladamente.
Conclusão: Alvo de uricemia < 6mg/dl parece superior a esquema guiado por sintomas.
Infecciologia, Microbiologia & Antimicrobianos
n=157 (14k rastreados), fase 3, aberto, Bayesiano, 19 hospitais nos EUA, 2019-2025.
P — Adultos ≥18A com choque séptico + act. de endotoxina 0,60-0,89 U + disf. multiorgânica
I — Polimixina B hemabsorvida (2 sessões 90-120 min, 22 h intervalo) + habitual
C — Habitual isolado.
O 1º » Menor Mortalidade 28d: 39% vs 45%; prob. benefício post. 95,3% (OR APACHE-II aj. 0,67, IC credível 0,39-1,08).
O 2º » Menor Mortalidade 90 dias: probabilidade benefício 99,4% (OR 0,54, IC 0,32-0,87).
» Mais EAs graves: 30% vs 22%, ARA 8% / 2% relacionados com tratamento.
Comentário: Este Tigris pode validar análise pós-hoc de EUPHRATES — estudo de polimixina B no choque séptico endotóxico enriquecido (endotoxina 0,60-0,89 U + MODS) — com análise bayesiana- Resultado: alta probabilidade de benefício em mortalidade aos 28 e 90 dias (95%/99%), em endótipo raríssimo (14k triados para 157 na amostra final). Ensaio muito pequeno, sem ocultação e com alta probabilidade de viés de selecção (milhares de rastreados para pouquíssimos incluídos). Mesmo que se ache que o ensaio confirma hipótese biológica e seja promissor para a sépsis refractária por gram negativos produtores de endotoxina, precisa de validação externa (tempo, dosagem, outros endótipos). Para mim, parece bom demais para ser verdade.
Conclusão: A polimixina B em hemadsorção pode diminuir mortalidade no choque séptico com endotoxinas, mas falta validação
n≈724k residentes / 15 clusters, Singapura, 24 meses
P — Residentes em 15 clusters urbanos endémicos (alta densidade, habitação pública)
Basal: Igual abundância basal de fêmeas selvagens: 0,18 vs 0,19 fêmeas
I — Libertação repetida (2x/S) de machos Aedes aegypti infectados c/ bactéria Wolbachia wAlbB (mosquitos à estéreis)
C — Sem libertação (controlo; controlo vectorial habitual da cidade)
O entomológico » Maior supressão de mosquitos dos 3 meses até 24 meses: 0,041 vs 0,277 fêmeas, dif. - 0,20
O clínico 1º » MENOS testes positivos para dengue (≥6 meses de follow-up): 6% vs 21%
2º » Maior Eficácia protetora (1−OR)×100: 71–72% para 3–≥12 meses de exposição (OR 0,28–0,29).
Comentário: Este ensaio de cluster em Singapura é provavelmente a melhor prova até agora para a técnica “libertar machos Wolbachia-esterilizados”: reduz a população de mosquitos Aedes selvagens e reduz o risco de dengue sintomático em ≈70%, num ambiente com vigilância de luxo e controlo vectorial agressivo de base. A magnitude do efeito (OR ~0,28) é difícil de ignorar, mas aconteceu num contexto urbano hiper-organizado, com libertações regulares e monitorização intensiva de mosquitos e de casos — muito diferente de grande parte da Ásia/América Latina. Não esquecer também que é uma intervenção populacional cara, dependente de infraestruturas laboratoriais e de saúde pública robustas, e, como em qualquer estratégia ecológica, os dados são de 2 anos, não de 20: não sabemos como evolui a dinâmica do mosquito, da Wolbachia ou do vírus a longo prazo. Mesmo assim, este somado ao de Yogyakarta, Java (≈77% redução), faz pender a balança: como ferramenta de saúde pública, Wolbachia macho-esterilizado passa de curiosidade a opção séria para grandes centros urbanos endémicos, potencialmente complementando-se com vacinas, saneamento e controlo ambiental.
Conclusão: Libertar machos A. aegypti infetados com Wolbachia wAlbB suprimiu fortemente o vetor e reduziu em ~70% o risco de dengue sintomático em Singapura
Using Probability of Community-Acquired Pneumonia to Tailor Antimicrobials Among Inpatients: A Pragmatic, Randomized Trial
Neurologia
n=174 (312 rastreados), aberto, centro terciário único em Santiago de Compostela, 2023-2025
Nesta população de AVC isquémico c/ oclusão de grandes vasos sujeita a trombectomia (restantes características típicas), extubação às 6 horas não foi formalmente superior à extubação às 12 horas para desfechos neurológicos. Acho que seria sobreoptimismo achar que o seria, mas estes investigadores espanhóis assim o testaram. Há até algum sinal numérico para melhores desfechos neurológicos, mas pode ser só isso...sinal. Ainda assim, na ausência de evidência de malefício, diria que shorter is better.
Oncologia
n=159, aberto, 1 centro – hospital terciário na China
P — Cancro da mama estádio I-III sem QT prévia + Pegfilgrastim pós-QT
I — Pegfilgrastim aos 72 h pós-QT
C — Pegfilgrastim aos 24 h ou 48 h pós-QT
O 1º » MELHOR AUC da “pior dor óssea” nos primeiros 5 dias do 1º ciclo: 6,05 vs 12,74 (24 h) e 14,20 (48 h), p<0,001
O 2º » Menos Dor óssea grave (>5/10): 22,6% vs 58,5% e 66,0%, p<0,001.
» Igual Neutropenia (0 casos de neutropenia febril)
Comentário: Desconhecia esta entidade “PIBP”, mas, pelos vistos, é bem mais frequente do que acharia (parece acontecer pelo grande aumento de hematopoiese na medula óssea com maior pressão vascular e libertação de mediadores inflamatórios). Também não diria que atrasar a administração de pegfilgrastim ajudaria. Pois eis que, neste ensaio, um atraso de 72 h parece cortar a dor óssea para metade ou menos, sem penalizar o benefício hematológico — e isso numa complicação que é comum, chata e até muito mais frequente do que a neutropenia em si e a febre neutropénica. O estudo é pequeno e de um único centro chinês, aberto e limitado a cancro da mama em estádio inicial: não é prova universal. No entanto, a magnitude do efeito em dor é grande o suficiente para merecer que, por enquanto, demos atenção aos resultados, até porque é algo simples de fazer e não houve sinal de mais neutropenia (ou NF). Ainda assim, vale a pena não aceitar isto como dogma até haver confirmação multicêntrica e noutras populações (de preferência com maior amostra e ocultação).
Conclusão: Pegfilgrastim 72h pósQT reduziu a dor óssea associada sem aumentar neutropenia ou febre neutropénica.
ESTUDOS OBSERVACIONAIS

REVISÕES SISTEMÁTICAS COM ESTUDOS OBSERVACIONAIS (com ou sem ECA)
Doente crítico/urgente
n=33.060 cateteres periféricos (PIV) / 49 estudos (++retrospectivos), até dezembro 2025
Introdução: Vasopressores periféricos (PIV) estão a ganhar tracção para choque, evitando atrasos e riscos / desconfortos do catéter venoso central (CVC). Esta meta-análise atualizada quantificou eventos adversos (EA) e proporção de CVC evitados, incorporando dados recentes, midlines e análises por agente.
Métodos:
· Inclusão: adultos ≥18 anos com vasopressores via PIV (short ou midline), reportando EA ou evicção de CVC à ECAs, coortes ou séries ≥10 doentes.
· EA menores: dor, edema, infiltração, extravasação, flebite (tratamento conservador).
· EA maiores: necrose tecidular, isquemia, TVP/TEP, intervenções cirúrgicas.
· Análise: modelo random-effects com proporções pooled (generalized linear mixed model); subgrupos por agente, duração, calibre, localização; análise de viés com JBI/RoB2.
Resultados:
· EA menores pooled (todos vasopressores): 2,3% (IC95% 1,5–3,7%).
Fenilefrina: 2,9% (1,8–4,8%)
Noradrenalina: 2,6% (1,4–4,7%)
Dopamina: 1,4% (0,3–5,9%)
Vasopressina: 0,5% (0,1–1,8%)
Adrenalina: 0,0% (0,0–24,6%)
· EA maiores: 31 eventos totais.
Midlines (4 estudos, 1126 cateteres): 1,4% (0,4–5,4%), todos TEP.
Short PIV (43 estudos, 29 596 cateteres): ~0% (1 caso isolado de necrose).
· Evitação de CVC: 59,7% (46,4–71,7%) em 38 estudos (15 371 cateteres) à variou 0–100% por estudo
· Duração:
<24h vs ≥24h: EA menores 2,1% (<24h) vs 3,1% (≥24h), s/ dif. estatisticamente significativa mas poucos dados; EA maiores semelhantes e raros.
Mediana de duração geral: ~4–6h na maioria dos estudos (varia).
Nenhum subgrupo >24h mostrou sinal de risco explosivo, mas poucos dados3
Comentários: Com 33 mil cateteres, esta é a maior meta-análise no tema até hoje e confirma que vasopressores por via periférica em curta janela temporal têm EA muito baixos (menores ~2%, maiores ~0%), permitindo evitar CVC em ~60% dos casos. Dentro dos acessos periféricos habituais e midlines, os CVP habituais parecem mais seguros. Isto reforça a possibilidade de começar a usar noradrenalina periférica no SU (calibre ≥22G, acima da fossa cubital, monitorizar local, limite 1–2h até CVC se possível), evitando atrasos no choque séptico. Limitações: heterogeneidade alta (I²>90%), estudos observacionais, definições variáveis de EA, poucos dados com >24h.
PRIMÁRIOS - SUB-ANÁLISE / COORTE / CASO-CONTROLO / INQUÉRITOS / A. ECONÓMICAS
Cardiovascular
n=5438, follow-up a 10 anos do HOST-EXAM: AAS vs Clopidogrel 6-18M após ICP, Coreia do Sul, taxa conclusão 92%
Depois do HOST-EXAM já temos outros ensaios e meta-análises a apontar para maior segurança (e eficácia?) do clopidogrel quando comparado com ácido acetilsalicílico como anti-agregante simples depois de fase dupla habitual. Nesta re-avaliação em 10 anos, clopidogrel continua associado a menos desfecho primário composto (MACE + readmissão por SCA + hemorragia) (estimativa de Kaplan-Meier de 25,4% vs. 28,5%, RR 0,86 [IC 95% 0,77–0,96]; p de log-rank = 0,0050), menos eventos trombóticos (17,3% vs. 20,0%; teste log-rank p=0,0024) e menos hemorragia (9,1% vs. 10,8%; teste log-rank p=0,020), enquanto que a mortalidade total manteve-se semelhante. Nada de novo, mas uma vez, temos evidência neste sentido. Quando começará a mudar a prática? Pois, claro, se o velho clopi fosse um dos novos iP2Y12 com maior poder de marketing e comércio, a história provavelmente já seria outra...
Diagnóstico e Raciocínio Clínico
n=252, coorte prospectiva, Amsterdam UMC (2016–2021)
Introdução: Nas endocardites, o “controlo de foco” costuma ser o desfecho alterado com métodos de diagnóstico mais avançados — se a PET/CT encontrar o abscesso, a osteomielite ou a embolia séptica que ninguém viu, há mais hipóteses de se mexer no foco certo. Este estudo pergunta se a PET/CT acrescenta intervenções de controlo de foco para complicações extracardíacas, para além da imagiologia convencional.
Métodos:
· População: doentes com endocardite infecciosa (IE) possível ou definitiva pelos critérios ESC 2015, registados prospectivamente no Amsterdam UMC.· Comparação: grupo com 18F-FDG-PET/CT vs controlo sem PET/CT.
· Desfecho primário: número de intervenções de controlo de foco (SCIs), analisado com modelos de Cox para eventos recorrentes e PET/CT como covariável dependente do tempo.
· Desfechos secundários: número necessário para PET/CT para obter uma SCI adicional, preditores de SCI e mortalidade aos 90 dias ajustada para “viés de tempo imortal” e confundidores.
Resultados:
· Incluíram-se 252 doentes: 152 no grupo PET/CT e 100 no controlo.
· No grupo controlo, realizaram-se 18 SCIs.
· No grupo PET/CT, realizaram-se 57 SCIs, das quais 21 foram desencadeadas por achados da PET/CT.
· O número bruto necessário para PET/CT um SCI adicional foi de 8 (IC95% 6–15).
· A PET/CT associou-se ao número de SCIs, com HR ajustado de 2,96 (IC95% 1,36–6,44).
· Não houve diferenças na mortalidade aos 90 dias entre os grupos (HR 0,69, IC95% 0,40–1,20).
Comentários: O sinal parece claro: a PET/CT não está só a “diagnosticar mais”, está a fazer com que se trate mais os focos extracardíacos. Em termos práticos, um número necessário para PET/CT de 8 para obter uma intervenção adicional de controlo de foco não é irrelevante num problema com tanta morbimortalidade e tanta zona cinzenta clínica. Isto encaixa bem na crítica habitual à imagiologia “boa na teoria”: se não muda decisões, a utilidade é ornamental. Aqui parece mesmo mudar. O que o estudo não mostra é se esse controlo de foco seria mesmo necessário e se terá benefício em mortalidade. Quanto à mortalidade, não parece ter sido alterada. Quanto a outros desfechos orientados ao doente de relevo, não sabemos. Isso são “outras paradas”, como diria um famoso e recentemente denegrido youtuber.
Infecciologia, Microbiologia & Antimicrobianos
n=294, pós-hoc de 2 ECAs na mITT (STRIVE + ReSTORE, candidemia e/ou candidíase invasiva + dias 7, 14 e 30)
Introdução: A lógica aqui é simples e boa: rezafungina é um equinocandina semanal com exposição “de carga”. Por isso, faz sentido perguntar se esta poderá limpar a fungémia mais cedo e, em doentes seleccionados, abrir a porta a tratamentos mais curtos. As guidelines continuam a recomendar pelo menos 2 semanas após clearance da candidémia, mas este artigo procura por sinal para desafiar esse hábito.
Métodos:
· População: adultos com candidemia e/ou candidíase invasiva tratados com rezafungina semanal 400/200 mg ou caspofungina diária 70/50 mg por até 4 semanas.
· Fonte: análise combinada dos ensaios STRIVE (reza vs placebo) e ReSTORE (reza vs caspo)
. Tempo até cultura negativa (TTNBC) apenas em doentes com candidemia.
· Desfechos: mortalidade por todas as causas, erradicação micológica e tempo até hemocultura negativa nos dias 7, 14 e 30.
· Segurança: avaliada no conjunto de segurança ao dia 7.
Resultados:
· Rezafungina foi não inferior à caspofungina em todos os timepoints analisados.
· Dia 7: mortalidade 7,9% vs 5,2%, diferença ponderada 3,0% (IC95% −3,7 a 9,7).
· Erradicação micológica ao dia 7: 71,2% vs 65,2%, diferença 6,6% (IC95% −4,0 a 17,1).
· TTNBC mediano foi numericamente mais curto com rezafungina: 22,3 h vs 26,3 h.
· Subgrupos sugeriram possível benefício precoce em candidemia, sobretudo com C. albicans.
· A segurança ao dia 7 foi semelhante ao que já se conhecia.
Comentários: Isto não prova que já possamos encurtar tratamento de candidemia na prática. O que mostra é sinal biologicamente plausível, de actividade antifúngica mais precoce com rezafungina, suficiente para justificar futuros ensaios desenhados para testar duração mais curta (7 vs 14 dias) em doentes seleccionados.
n=89, revisão retrospectiva de prontuários, WVUH nos EUA (janeiro–abril 2023)
Introdução: OPAT (antibioterapia endovenosa no domicílio) é cada vez mais comum nos EUA, mas a transição hospital para “hospitalização domiciliária” (skilled nursing facility ou SNF) continua a ser um campo minado de erros de prescrição e falha de monitorização. Este pequeno estudo retrospectivo olhou para o que acontece na prática quando os doentes saem do hospital e o que o programa OPAT tem de intervir para corrigir.
Métodos:
· População: doentes ≥18 anos com consulta OPAT interna no WVUH, transferidos para SNF para completar antibioterapia IV; excluídos reabilitação
· Dados: revisão de prontuários para erros de alta (dose, duração, monitorização), barreiras à alta e intervenções OPAT (ajustes terapêuticos, monitorização laboratorial, eventos adversos).
· Desfechos primário: frequência e tipo de intervenções OPAT.
. Secundários: erros de alta e barreiras.
Resultados:
· Mediana idade 70 anos, CCI mediana 5
. Infecções mais comuns: osso/articulação (56%), pele/tecidos moles (20%), vasculares (17%).· Antimicrobianos: daptomicina 42%, vancomicina 26%, ceftriaxona 20%.
· Barreiras à alta em 9 doentes (10%): custo (6, maioritariamente dapto), restrições de formulário (2).
· Erros à data de alta em 32/89 (36%), total 44 erros: dados de ciclo / suspensão em falta (16), monitorização laboratorial em falta (16), dose errada (6), duração errada (5).
· Intervenções OPAT em 43/89 (48%): 23 monitorização laboratoriais (9 só vancomicina), 23 ajustes terapêuticos (9 duração, 9 dose, 5 vancomicina), 12 eventos adversos (4 dapto: CK↑, 3 vanco: leucopenia), 8 outros (educação OPAT).
Comentários: Neste estudo retrospectivo sobre a prática OPAT específica de uma região / centro, registaram-se 36% dos doentes com erros à data de alta alta e 48% de “intervenções OPAT” — isto não é só “barulho”, é um problema real de transição que um programa OPAT o mais estruturado e afinado possível tem de conseguir corrigir activamente. O custo e formulários complicam a utilização de daptomicina, mas vancomicina gera mais necessidade de ajustes laboratoriais (daí, provavelmente, menos EAs). A mensagem é simples: alta para OPAT precisa de uma boa reconciliação terapêutica activa, contacto imediato com farmácia/enfermagem e monitorização periódica. Sem isso, os erros acumulam e as readmissões podem aumentar.
n=112, coorte retrospectiva, Los Angeles County Health Services (2020–2023)
Introdução: Transição hospital para hospitalização domiciliária ou “skilled nursing facility (SNF)” com antibióticos (OPAT ou COPAT) está na moda — mas há poucos dados sobre a frequência real de erros e se esses erros levam a piores desfechos. Este estudo retrospectivo olha para uma grande rede pública nos EUA e tenta identificar factores de risco e associações com mau resultado.
Métodos:
· População: residentes de SNF ≥18 anos em consulta de infecciologia pós-alta hospitalar a receber antibióticos à rastreio de 6865 consultas.
· Exposição: erros de transição antimicrobiana (dose, via, frequência, duplicações, etc.).
· Desfecho 1º: erros de transição (primário)
. Desfechos 2os: Infecções
. Análise: Regressão logística multivariada para preditores.
Resultados:
· Idade média 62 anos, 37% mulheres, 57% hispânicos/latinos.
· Erros de transição em 32/112 (29%): penicilinas (39%), tetraciclinas (38%), daptomicina (36%).
· Na análise multivariada, nenhum factor significativo para erros: idade, CCI, polimedicação, classificação CMS da instituição, duração terapia.
· Idade mais avançada foi o único predictor independente de mau desfecho de infecção (p=0,02).
· Tendência não significativa entre erros e mau outcome: OR 1,63 (IC95% 0,58–4,81).
Comentários: 29% com erros de transição — números consistentes com o estudo anterior, mas aqui sem OPAT estruturado para “salvar o dia”. Nenhum preditor claro de quem vai errar (frustrante para boa triagem), e só idade avançada como mau desfecho. A tendência OR 1,63 para erros → pior infecção merece estudos maiores. Portanto, mais uma vez: alta para domicílio com antibióticos precisa de reconciliação activa. Sem isso, 1 em 3 tem erro, e pode custar caro.
FOAMed

Doente crítico/urgente
Terei isto em conta, embora seja talvez mais para intensivistas
Endocrinologia
Mais um dia, mais uma voltinha. Mais outro artigo (desta vez pela via de ECA a comparar desmopressina "logo" com apenas se mesmo necessário) a demonstrar que o risco de sobrecorrecção é baixo e sem desfechos negativos (e isto quando, pelas palavras do Joel Topf, foi usada uma estratégia agressiva de "NaCl 3% até 150ml em 20min").
Excelente! Aqueles litros de soro que se dá antes do sódio e osmolaridade urinário podem não ser assim tão graves.
Nefrologia
Bom resumo
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