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Outubro 2026 - #1 Elixir triunfal

há 9 horas
28 min de leitura

No substack: esFOAMeados No patreon: esFOAMeados Em podcast: Hipótese Nula



TABELA DE CONTEÚDOS


SINOPSE


🎂 Nata da nata

- ITU --> Na ITUc / Pielonefrite do doente internado, não vale a pena escalar além de ceftriaxone por regra (OFID)


🍰 Nata

- Obesidade --> Retatrutido, agonista triplo, muito eficaz e promissor (TRIUMPH-1, NEJM)

- Infecção osteoarticular --> Abt <=7d suficiente depois de cirurgia curativa (SOLARIO, NEJM)

- Colonoscopia --> Intervalo 5A não-inf a 3A em adenoma de alto-risco (EPoS II, NEJM)

- VHC --> Sofosbuvir-velpatasvir 8 semanas não-inferior a 12 semanas (RESOLVE, Lancet)

- Estatina --> Mais um ECA em P.1ª em idosos...mais uma vez, sem grande benefício (STAREE, NEJM)

- TEP --> No TEP risco intermédio/alto, trombólise por catéter deixa muitas dúvidas (PRAGUE-26, NEJM)

- Estenose aórtica --> TAVI na EAo baixo fluxo e gradiente sintomática? Não sabemos... (REBOOT-PARADOX, NEJM)

- AVCi --> TNK préTEV na oclusão basilar c/ >4.5h, sem benefício (ATTENTION LATE, JAMA)


🧾Receita

- Sintomas vasomotores e farmacoterapia (AIM/ACP)


🧐 Observações

- Primários: Consultas preparadas com IA (Lancet)

- Casos e séries: Intoxicação por CO e imagem cerebral (RSPMI) | POCUS e Oclusão intestinal alta (AMP)


🌎FOAMed

CAR-T




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REVISÕES SISTEMÁTICAS de ECAs

Infecciologia, Microbiologia & Antimicrobianos

47 ECAs, 17 ECA pós-2000 / n≈7000, RS + NMA, 16 antibióticos

P — Internados com ITUc ou pielonefrite aguda, tratados empiricamente antes de conhecer o agente/susceptibilidade.

I — Ceftriaxona ou outros EV, incluindo combinações fixas β-lactâmico/inibidor de β-lactamase.

C — Ceftriaxona como comparador comum da rede.

O » Semelhante resposta clínica semelhante entre ceftriaxona e outros de espectro mais largo - ORs próximos do nulo, IC sobrepostos.

    » Maior erradicação microbiológica sem diferente cura clínica com alguns agentes

    » Sem diferença clara em EAs graves

   - Nos 17 ECA pós-2000: 59% baixo risco de viés (principal viés: aberto)

   - Resistência basal a ceftriaxona entre Enterobacterales ~15%

   - Nula heterogeneidade estatística

Comentário: É exactamente o tipo de estudo que faz falta antes de começar empiricamente meropenem ou pip/tazo em todo o doente com “ITU complicada”. Quando a probabilidade pré-teste de Enterobacterales não susceptível à ceftriaxona é baixa a moderada — aqui, cerca de 15% —, os antibióticos mais largos não parecem aumentar a cura clínica. Podemos até esterilizar mais culturas, mas isso volta a levantar a questão que vimos nos ensaios de Pielonefrite/ITUc: erradicação microbiológica não é necessariamente benefício para o doente. Mas cuidado com a palavra “equivalente”. Isto é uma NMA com comparações indirectas, construída a partir de ensaios com definições diferentes de ITUc, Pielonefrite, teste de cura e critérios de resposta. A própria escolha de ceftriaxona como comparador central torna-se metodologicamente prática, mas não transforma todas as comparações em ECA ceftriaxona vs pip/tazo, ceftriaxona vs cefepima ou ceftriaxona vs carbapenem. A ausência de heterogeneidade estatística — , — é tranquilizadora, mas, numa rede com poucos estudos directos por ligação e IC largos para diversos agentes, pode significar simplesmente pouca capacidade para detectar heterogeneidade. O outro limite é aplicabilidade. Os autores excluíram tratamento dirigido a organismos resistentes conhecidos e regimes empíricos combinados. Portanto, não respondem à pergunta do doente em choque séptico, com bacteriúria prévia por ESBL, uropatia obstrutiva, stent/nefrostomia, múltiplas exposições recentes a β-lactâmicos ou colonização documentada por Pseudomonas. Nesses contextos, a probabilidade pré-teste de resistência, provavelmente, deixa de ser ~15%, e é essa probabilidade, mais gravidade e controlo de foco, que deve mandar no espectro inicial da nossa escolha. Também não devemos concluir que a ceftriaxona é necessariamente a escolha mais estreita. Em ambiente com baixa resistência de amoxicilina/ác.clavulânico a Enterobacterales, particularmente ao trio da ITU (E. coli, K. pneumoniae e P. mirabilis), pode até ser pertinente começar com esta, sobretudo pielonefrites / cistites sem grandes motivos para preocupação.

Conclusão: No doente internado com ITUc/Pielonefrite, estável e com padrão local de baixa resistência a ceftriaxone, não aumentar o espectro por regra.




ENSAIOS CONTROLADOS E ALEATORIZADOS

Cardiovascular

n=558, aberto (incluindo adjudicação), multicêntrico em 11 centros na Chéquia, follow-up primário de 7 dias

P — TEP de risco intermédio-alto: estabilidade HD, sPESI ≥1, Tn/BNP elevado e disf. VD

I — Trombólise dirigida por cateter com alteplase + anticoagulação

C — Anticoagulação isolada

O 1º » MENOS morte, recorrência de TEP ou descompensação/colapso CResp a 7d: 0.7% vs 6.8%, RRA 6% / NNT 17, RR 0.10 (IC 95% 0.02–0.44), p<0.001

         - Dominante - Descompensação/colapso: 0.7% vs 5.4% (1 vs 6 eventos)

         - Choque: 0.4% vs 2.2%

         - Morte total: 0.4% vs 1.4% / Morte por TEP%: 0 vs 0.3%

         - Recorrência de TEP: 0.7% vs 0.4%

         - Intubação ou ventilação não invasiva: 0.4% vs 2.5% (1 vs 5 eventos – VM ou VNI?)

O 2º » Igual hemorragia clinicamente relevante aos 7d e 30d: 7d - 4.6% vs 5.0%, p=0.85

         » Igual hemorragia major: 1.4% vs 2.2%; p=0.54

         » Mais hemorragia intracraniana: 0.7% vs 0% (1 das HIC levou a morte)

         » Igual Mortalidade aos 30 dias: 0.4% vs 1.4% (0 vs 2 eventos se morte por TEP)

Comentário: À primeira vista, o PRAGUE-26 parece ter resultados espectaculares. Em doentes com embolia pulmonar de risco intermédio-alto, a trombólise dirigida por cateter reduziu de 6.8% para 0.7% o composto de morte, recorrência de TEP ou deterioração cardiorrespiratória. Uma RRA de 6.1% e um NNT de 17 parecem suficientemente grandes para transformar a prática. A intervenção também não aumentou a hemorragia clinicamente relevante ou a hemorragia major. É tentador concluir que a anticoagulação isolada deixou de ser adequada para este grupo. Mas, e há sempre um mas, o resultado é menos definitivo do que o composto sugere. Houve apenas 2 eventos no grupo da trombólise e 19 no grupo controlo, num ensaio de 558 doentes com TEP de risco intermédio-alto. A diferença foi quase toda provocada pela descompensação cardiorrespiratória, não por mortalidade ou recorrência de embolia. A morte foi 0% vs 1.4% aos 7 dias e a recorrência de TEP foi 0.7% vs 0.4%, e aos 30 dias morreram 0.4% vs 1.4% (apenas 0 vs 2 no total se mortes por TEP), números demasiado pequenos para demonstrar alguma coisa de mortalidade. Além disso, o componente que conduziu o benefício inclui choque, intubação ou ventilação não invasiva e critérios de deterioração que podem ser influenciados pela decisão clínica. Houve choque em 0.4% vs 2.2% e ventilação invasiva ou não invasiva em 0.4% vs 2.5%. Não são desfechos inventados ou irrelevantes, mas, e particularmente relevante num ensaio aberto, dependem muito de decisões médicas tomadas por equipas que conhecem o tratamento atribuído. A comissão de adjudicação também conhecia a alocação. Isto pode influenciar a decisão de iniciar ventilação não invasiva, intubar ou classificar um doente como estando em choque, mesmo sem qualquer manipulação dos dados. Estratégias abertas são simplesmente mais vulneráveis a este tipo de viés. Mais, a segurança não deve ser reduzida à hemorragia major global. Dois doentes tiveram hemorragia intracraniana no grupo da trombólise e nenhum no grupo controlo. A diferença não foi estatisticamente significativa, mas isso é sobretudo consequência do reduzido número de eventos, não demonstra que os tratamentos sejam igualmente seguros. Um doente do grupo da trombólise morreu na sequência da hemorragia intracraniana. Num tratamento administrado a doentes relativamente estáveis, este risco raro mas potencialmente catastrófico pesa bastante. A população também não representa necessariamente todos os doentes classificados como risco intermédio-alto. A pressão arterial sistólica mediana era 135 mmHg, cerca de 65% tinham sPESI de apenas 1 e o rácio VD/VE mediano era 1.13. Ou seja, muitos tinham alterações objectivas, mas população global ainda bastante estável. Ao mesmo tempo, quase dois terços dos participantes foram recrutados em apenas dois centros, o que pode limitar a generalização e levantar a possibilidade de influência de experiência local, selecção de doentes e organização de equipas de resposta à TEP.

O PRAGUE-26 deve ser interpretado em conjunto com o HI-PEITHO. Ambos sugerem que uma intervenção dirigida por cateter pode reduzir deterioração precoce, mas usam componentes compostos vulneráveis à avaliação clínica. No HI-PEITHO, o resultado positivo foi conduzido sobretudo por um NEWS elevado ; no PRAGUE-26, por choque e necessidade de suporte ventilatório. Nenhum dos dois demonstrou de forma convincente redução de mortalidade ou de recorrência de TEP. A convergência entre os ensaios é interessante, mas ainda não equivale à prova de que todos os doentes de risco intermédio-alto devam receber trombólise por cateter (muito pelo contrário, por enquanto).

Conclusão: A trombólise dirigida por cateter reduziu a deterioração cardiorrespiratória precoce no TEP de risco intermédio-alto…mas à custa de muita dúvida e HIC.


n=120 / 728 planeados, aberto, multicêntrico, recrutamento interrompido precocemente por lentidão

P — Estenose aórtica sintomática de baixo fluxo/baixo gradiente* e FEVE ≥50%

        *área ≤1.0 cm², gradiente médio <40 mmHg, índice de volume sistólico <35 mL/m²

         Basal: idade mediana 82 anos, 53.3% mulheres

I — TAVI + tratamento médico óptimo

C — Tratamento médico óptimo, vigilância clínica e ecocardiográfica

         - 19 doentes cruzaram posteriormente para TAVI (++ por progressão sintomática)

O 1º » IGUAL mortalidade global a 2 anos: 29.0% vs 37.1%; HR 0.83, IC 95% 0.41–1.66; p=0.60

         » IGUAL mortalidade aos 5 anos: 44.9% vs 56.6%; HR 0.76, IC 95% 0.43–1.35; p=0.35

O 2º » Menos doentes em NYHA III/IV aos 12 meses: 17.0% vs 41.0%

         » Mais doentes em NYHA I/II: 83.0% vs 59.0%

         » Menos primeira rehospitalização por mesmo motivo

         » Igual capacidade funcional e qualidade de vida

Comentário: A pergunta do REBOOT-PARADOX é importante porque a estenose aórtica de baixo fluxo/baixo gradiente parece grave pela área valvular e pela calcificação, mas não pelo gradiente. A FEVE preservada pode transmitir uma falsa sensação de segurança, enquanto o problema principal pode ser um ventrículo pequeno, hipertrofiado e rígido, com baixo enchimento e baixo volume sistólico. Fibrilhação auricular e insuficiência mitral podem agravar ainda mais esse baixo débito. A resposta deste ensaio não é que a TAVI reduziu obrigatoriamente a mortalidade…embora sinal para tal. A mortalidade foi 29.0% vs 37.1% aos 2 anos, HR 0.83, mas com IC 95% 0.41–1.66 e p=0.60. Aos 5 anos, a diferença numérica persistia — 44.9% vs 56.6% — mas continuava estatisticamente não significativa. Isto não demonstra equivalência entre as estratégias, demonstra que o ensaio, tal como realizado, não conseguiu resolver a questão. Infelizmente, o REBOOT-PARADOX ficou muito longe de o conseguir. Foram incluídos apenas 120 dos 783 doentes planeados. Com 80 pessoas no braço TAVI e 40 no braço médico, qualquer estimativa de mortalidade fica imprecisa. O facto de o HR pontual ser inferior a 1 não permite transformar um resultado negativo num benefício provável. Os desfechos sintomáticos foram mais favoráveis à TAVI - aos 12 meses, 83.0% estavam em NYHA I/II versus 59.0% no grupo médico, e houve menos primeira rehospitalização – mas desfechos subjectivos em ensaio aberto. O doente, o médico e a equipa sabem se foi implantada uma válvula: isso pode influenciar a atribuição da classe NYHA, a decisão de internar e a interpretação da melhoria. Não houve diferenças na capacidade funcional ou qualidade de vida, o que torna a narrativa de benefício clínico menos consistente. A contaminação entre grupos também é importante: 19 dos 40 doentes inicialmente atribuídos ao tratamento médico acabaram por fazer TAVI, sobretudo por progressão dos sintomas. A análise por intenção de tratar preserva a pergunta pragmática — TAVI imediata versus estratégia inicial de vigilância — mas aproxima os resultados entre grupos e torna mais difícil estimar o efeito de TAVI em si. Por outro lado, este crossover reflecte aquilo que provavelmente aconteceria na prática: vigilância não significa abandonar o doente, significa intervir quando os sintomas e a evolução justificam. O prévio ROTAS apontava na mesma direcção, embora seja ainda mais pequeno: incluiu apenas 52 doentes com estenose aórtica sintomática de baixo gradiente e FEVE preservada; o desfecho de morte ou hospitalização cardiovascular ocorreu em 19% com substituição valvular vs 27% com tratamento médico, HR 0.76, IC 95% 0.24–2.39, p=0.63; também foi interrompido por recrutamento insuficiente. Dois ensaios pequenos e negativos não provam que a TAVI seja inútil nestes doentes, mas certamente não fornecem a confirmação prognóstica que se esperaria antes de tratar automaticamente uma população idosa e vulnerável (mediana de 82 anos). Há ainda uma questão conceptual: uma válvula extremamente calcificada e imóvel no ecocardiograma não é necessariamente a causa dominante dos sintomas ou prognóstico. Se o problema é já a cardiopatia valvular e eventualmente também hipertensiva, com outras co-morbilidades, corrigir a válvula pode não normalizar o débito. A TAVI pode melhorar a hemodinâmica valvular e alguns sintomas, mas não corrige fibrilhação auricular, disfunção diastólica, insuficiência mitral, fragilidade ou outras causas de dispneia.

Conclusão: TAVI reduziu numericamente mas não significativamente mortalidade, melhorou a classe funcional e não melhorou funcionalidade ou qualidade de vida.


n=9971, dupla ocultação, run-in, cuidados de saúde primários na Austrália, follow-up 6 anos, financiamento público

P —≥70 anos, comunidade e independentes, sem DCV, DM, demência ou outra doença limitante da EMV

        Basal: idade média 74.7 anos, 51.9% mulheres | LDL médio 127 mg/dL, PA média 136/80 mmHg | 19.6% com ≥5 medicamentos

I — Atorvastatina 20mg/dia 4 semanas -> 40 mg/dia, com ajustes permitidos por intolerância

C — Placebo

O 1º » MENOS MCV, EAM não fatal, AVC não fatal ou revasc: 6.0% vs 8.3%; HR 0.70, IC 95% 0.61–0.82; p<0.001

        - NNT 37 aos 5.9 anos, segundo a estimativa temporal dos autores (as percentagens acima são proporções brutas)

O 1º » IGUAL sobrevida livre de incapacidade: 12.8% vs 13.6%; HR 0.94, IC 95% 0.84–1.05; p=0.25

O 2º » Menos morte cardiovascular, EAM ou AVC: 4.7% vs 6.3%; HR 0.73, IC 95% 0.62–0.87

        » Menos EAM fatal/não fatal: 1.6% vs 2.7%; HR 0.57, IC 95% 0.43–0.75

        » Menos revascularização coronária: 2.2% vs 3.8%; HR 0.57, IC 95% 0.45–0.72

        » Igual AVC fatal/não fatal: 2.4% vs 2.8%; HR 0.87, IC 95% 0.68–1.11

        » Igual demência: 5.8% vs 5.6%; HR 1.03, IC 95% 0.87–1.21

        » Igual incapacidade física persistente: 1.2% vs 1.6%; HR 0.74, IC 95% 0.53–1.04

        » Igual mortalidade global: 13.0 vs 14.3/1000 pessoas-ano

        » Igual hospitalização por qualquer causa: HR 0.99, IC 95% 0.94–1.04

        » Iguais Eventos adversos graves considerados relacionados com o tratamento: 2.7% vs 2.7%

        » Mais eventos hepatobiliares clinicamente importantes: 1.4% vs 0.3%; ARA 1.1%

        » Mais? eventos de diabetes/relacionados clinicamente importantes: 1.1% vs 0.7%; ARA 0.4%

        » Mais? suspensão por eventos adversos/intolerância: 7.2% vs 6.1%; ARA 1.1%

        - Adesão: Aos 5 anos, 55.6% atorvastatina e 47.0% placebo; estatina fora do protocolo: 9.4% vs 19.4%

Comentário: Finalmente, um ensaio desenhado para responder a uma das perguntas que tanto se discute: iniciar uma estatina em prevenção primária numa pessoa com mais de 70 anos traz benefício? O STAREE responde «sim» para eventos cardiovasculares, mas não demonstra que se viva mais tempo ou mais tempo sem demência ou incapacidade. Em termos absolutos, os autores estimam um NNT de 37 em cerca de seis anos para o “1º composto primário” de MCV, AVC e EAM não-fatais e revascularização. Importa não confundir esse NNT, obtido a partir da estimativa temporal do ensaio, com o cálculo simples a partir das proporções brutas de 6.0% vs 8.3%. O outro desfecho primário é particularmente relevante aos 75 anos: não apenas evitar eventos, mas continuar vivo, cognitivamente capaz e fisicamente independente. Aqui não houve benefício demonstrado: HR 0.94, IC 95% 0.84–1.05. O teste era hierárquico — primeiro, eventos cardiovasculares, depois, sobrevivência livre de incapacidade — e o primeiro resultado positivo permitiu testar formalmente o segundo. Logo, não estamos perante um desfecho que ficou estatisticamente inacessível por multiplicidade: foi testado e foi negativo. Não prova ausência de qualquer benefício pequeno, mas não sustenta a promessa de prolongar uma vida independente ou sequer prolongá-la. Também não houve redução clara de mortalidade global, demência ou hospitalizações. Isso não torna irrelevante evitar um EAM, mas limita a narrativa de benefício global. Aos resultados individuais dos desfechos secundários deve ainda aplicar-se a reserva habitual: não houve ajuste para múltiplas comparações. Servem para compreender o padrão observado, não para multiplicar conclusões confirmatórias. A segurança é tranquilizadora: os 2.7% vs 2.7% referem-se a eventos graves considerados relacionados com o tratamento, e houve mais eventos hepatobiliares e, talvez, um pouco de mais relacionados com diabetes e mais suspensão por intolerância. As diferenças absolutas foram pequenas, mas podem ser relevantes numa intervenção preventiva prolongada em pessoas sem doença cardiovascular clínica.  A população é decisiva: idosos independentes, sem diabetes, doença cardiovascular, demência ou doenças limitantes da esperança de vida, com relativamente pouca medicação. Houve ainda um período inicial com placebo para avaliar adesão. Este não é o retrato de todos os octogenários frágeis, institucionalizados ou com multimorbilidade. A média de 74.7 anos também não autoriza tratar os resultados como prova igualmente robusta para pessoas com 85 ou 90 anos. Finalmente, a adesão diminuiu e quase um quinto do grupo placebo usava estatina fora do protocolo aos cinco anos. Isso reduz a separação entre estratégias e pode atenuar o efeito observado, mas não justifica inventar um benefício maior: a análise por intenção de tratar continua a ser a resposta mais robusta à decisão de iniciar tratamento. Muitos dirão que é um estudo que não nos diz muito, mas a mim diz: comprova-se que a estatina, nestes doentes, não é absolutamente decisiva – pode reduzir sobretudo EAM não-fatal mas não aumenta longevidade ou qualidade de vida – mas, por outro lado, é relativamente segura. Ainda recentemente prescrevi estatina a uma doente idosa em prevenção primária depois de uma discussão colaborativa que durou pelo menos 2 consultas diferentes espaçadas por meses: este ensaio traz mais dados para que a decisão seja tomada o mais consciente possível.

Conclusão: Em idosos ≥70 anos autónomos sem DCV ou DM, atorvastatina reduziu EAM não-fatal…mas sem resto.


Endocrinologia

n=2339, fase 3, superioridade, dupla ocultação, multicêntrico e internacional em 11 países, 80 semanas, Lilly

P — Adultos com obesidade sem diabetes (também: coortes pré-especificadas com gonartrose e/ou SAHOS)

        Basal: IMC médio ~40 kg/m², peso médio ~112.7 kg

I — Retatrutido* SC semanal: 4 mg, 9 mg ou 12 mg, após titulação progressiva

        *Agonista triplo dos receptores GIP, GLP-1 e glucagon

C — Placebo SC semanal

O 1º » MENOS peso às 80 semanas, estimativa ITT/regime terapêutico

        - 4 mg: −17.6% vs −3.9% | 9 mg: −23.7% vs −3.9%; RRA 19.8%; p<0.001 | 12 mg: −25.0% vs −3.9%; RRA 21.0%; p<0.001

O 2º » Coorte Gonartrose, n=574 » Menos dor (WOMAC, escala 1–10), estimativa híbrida:

        - 9 mg: −3.5 vs −1.9; diferença −1.6 pontos; p<0.001 | 12 mg: −3.6 vs −1.9; diferença −1.8 pontos; p<0.001

        » ITT: −3.9 e −4.1 vs −2.5; diferença −1.4 e −1.6 pontos

O 2º » Coorte SAHOS, n=243 » Menos eventos apneia–hipopneia/hora, estimativa híbrida:

        - 9 mg: −34.3 vs −9.9; diferença −24.4 eventos/hora; p<0.001 | 12 mg: −31.7 vs −9.9; diferença −21.9 eventos/hora; p<0.001

        » ITT: −34.3 e −32.1 vs −9.6; diferença −24.7 e −22.5 eventos/hora

        » Mais abandono por eventos adversos, dose-dependente

            - 4 mg: 4.1% vs 4.9% | 9 mg: 6.9% vs 4.9%; ARA 2.0%; NNH 50 | 12 mg: 11.3% vs 4.9%; ARA 6.4%; NNH 16

        » Mais efeitos adversos gastrointestinais           - Náusea: 42.4% com 12 mg vs 14.8% | Diarreia: 32.0% vs 13.5% | Obstipação: 26.1% vs 10.9% | Vómitos: 25.3% vs 4.8%

        » Mais Disestesia: 12.5% vs 0.9%

Comentário: O TRIUMPH-1 é um ensaio positivo, grande, de fase 3, e metodologicamente forte para a pergunta que faz: em pessoas com obesidade importante e sem diabetes, o retatrutido produz maior perda ponderal do que placebo durante 80 semanas. Uma perda média de 25% do peso corporal com 12 mg — versus 3.9% com placebo — é um efeito extraordinariamente grande e, à primeira vista, aproxima-se do que muitos esperariam apenas de cirurgia metabólica. Convém, no entanto, começar por limpar uma potencial confusão. A comunicação inicial da Lilly divulgara perdas de 25.9% e 28.3% com 9 e 12 mg, respetivamente. O artigo publicado no NEJM apresenta valores mais conservadores, de 23.7% e 25.0%, usando uma estimativa de regime terapêutico/ITT que incorpora o que acontece depois de interrupções terapêuticas e outros eventos intercorrentes. Para discussão clínica da vida real, os números do artigo publicado são os que contam: 23.7% e 25.0%, não os números promocionais mais favoráveis. Ainda assim, impressionante. Podemos argumentar, e bem, que peso é relevante para muitas pessoas — mobilidade, autoestima, funcionalidade, dor, fertilidade e controlo metabólico — mas continua a não ser directamente igual a morte, EAM, AVC, insuficiência cardíaca, incapacidade, qualidade de vida ou menos internamentos, e este ensaio não foi desenhado nem tem eventos suficientes para concluir que o retatrutido melhora prognóstico cardiovascular. No entanto, já temos evidência de outros fármacos da família a mostrar-nos que podem até melhorar o prognóstico cardiovascular, pelo que não me parece ser uma grande limitação. Também foi a interessante a tentativa de sair do substituto “peso” e medir consequências clínicas da obesidade nas duas coortes: na coorte com gonartrose, a dor melhorou mais cerca de 1.6–1.8 pontos numa escala de 10. Isso parece clinicamente plausível e provavelmente importa mais ao doente do que uma percentagem de peso. Mas é um desfecho subjetivo, num subgrupo de 574 doentes, e o tratamento tem efeitos gastrointestinais difíceis de ocultar. Mesmo num ensaio duplamente cego, os sintomas podem revelar a alocação e amplificar expectativas de benefício. Na coorte com SAHOS, a redução de 22–24 eventos por hora é grande. Contudo, mais uma vez, o índice de apneia–hipopneia é sobretudo um marcador fisiológico. Faltam aqui os desfechos que realmente fecham a história: sonolência diurna, acidentes, função cognitiva, qualidade de vida, necessidade de CPAP, eventos cardiovasculares e mortalidade. Melhorar muito o IAH é promissor mas pode não ser sinónimo automático de reduzir todos os danos clínicos atribuídos à SAHOS. Não esquecer que a população principal é obesidade com coortes específicas para gonartrose e SAHOS. Os resultados foram muito bons, mas obriga a não misturar indevidamente os resultados: não se pode afirmar que o retatrutido “trata a gonartrose” em geral, nem que substitui CPAP na SAOS, apenas porque melhorou dor e AHI em subgrupos selecionados e durante 80 semanas. Por último, embora a magnitude pareça igual ou até superior a semaglutido e tirzepatida, seria importante compará-los, sobretudo com tirzepatida, o actual camisola amarela do emagrecimento.

Comentário: Retatrutido, um agonista triplo, foi muito eficaz na perda de peso e também melhorou dor na gonartrose e IAH na SAHOS.


Gastroenterologia & Hepatologia

n=10 799, não-inf, aberto, 8 países europeus, análise interina aos 5.5 anos

P — Adenomas de alto risco completamente removidos: ≥1 adenoma ≥10 mm, displasia de alto grau, componente viloso ou 3–10 adenomas

I — Primeira colonoscopia de vigilância aos 5 anos

C — Primeira colonoscopia de vigilância aos 3 anos + 2ª aos 5 anos

O 1º » NÃO-INFERIOR incidência CCR aos 5 anos: 0.77% vs 0.82%; dif. −0.05%; IC 99.12% −0.?? a 0.68%; margem 0.7%

      2º » Iguais estádios do cancro no diagnóstico

           » Igual Mortalidade por cancro colorrectal

           » Mortalidade total?

Comentário: O EPoS II testou uma pergunta importante, frequentemente respondida por tradição (e que continua defendida nas guidelines vigentes): depois de remover um adenoma de alto risco, é mesmo necessário fazer a primeira colonoscopia de vigilância aos três anos? Neste resultado interino, começar aos cinco anos foi não-inferior a começar aos três anos relativamente à incidência de cancro colorrectal aos cinco anos. A diferença observada foi minúscula — 0.77% vs 0.82% — e o limite superior do IC de 99.12% ficou abaixo da margem de não-inferioridade pré-especificada de 0.7%. Há ainda uma questão estatística importante: este é um resultado interino, não o resultado final dos 10 anos. O desfecho primário definitivo será a incidência cumulativa de cancro colorrectal aos 10 anos. Para controlar o erro tipo I global, esta análise utilizou um IC unilateral de 99.12%; a análise final usará um IC de 95.33%. Um resultado interino positivo em não-inferioridade pode mudar com mais seguimento, sobretudo porque alguns cancros potencialmente evitáveis ainda não tiveram tempo para aparecer. Encontrar mais adenomas no grupo que faz colonoscopia mais cedo poderia parecer intuitivamente importante, mas não é o mesmo que prevenir cancro. O que interessa é saber se a colonoscopia adicional aos três anos reduz carcinomas, em que estádio são diagnosticados e a que preço: sobretudo, qual mortalidade por cancro e global. Até agora, os estádios não pareceram diferir substancialmente e houve apenas cinco mortes por cancro colorrectal, números insuficientes para concluir qualquer coisa sobre mortalidade. A generalização exige cuidado. Os doentes tinham lesões completamente removidas numa colonoscopia inicial de qualidade e pertenciam a um grupo definido como de alto risco. O resultado não permite prolongar automaticamente o intervalo em pessoas com remoção incompleta, preparação inadequada, síndrome hereditária, carcinoma prévio ou achados que não correspondam aos critérios de inclusão. Também não deve ser aplicado a intervalos posteriores sem conhecer os resultados da colonoscopia de vigilância. É importante notar que algumas recomendações europeias e norte-americanas continuam a indicar vigilância aos três anos para adenoma ≥10 mm, displasia de alto grau, histologia vilosa ou múltiplos adenomas. O EPoS II desafia a rigidez desse intervalo, mas não transforma ainda cinco anos numa regra universal: falta o resultado final a 10 anos e será necessário rever subgrupos, qualidade da colonoscopia, adesão e segurança.

Conclusão: Adenomas de alto risco removidos, iniciar a vigilância aos cinco anos foi não-inferior a 3 anos.


Hematologia

n=88 1ª / 134 (201 crises total), fase 3, superioridade, multicêntrico, dupla ocultação, 2×2, 59 centros em 24 países

P — Adolescentes e adultos com angioedema hereditário, incl. angioedema hereditário com C1-i N e variante genética + ≥2 crises / 3M + tto de resgate convencional prévio

I — Deucrictibant 20 mg PO de libertação imediata no início da crise

C — Placebo PO no início da crise

        Crossover em todos da análise 1ª: Cada participante tratou 2x as crises » 1 com deucrictibant » 1 com placebo

O 1º » MENOS tempo até início do alívio sintomático: ~ 1.28 h vs >12 h; p<0.0001

O 2º » Menos tempo até fim da progressão da crise: ~ 17.5 min vs 228.7 min

         » Menos tempo até resolução completa dos sintomas: mediana 11.95 h vs >48 h

         » Mais resolução completa da crise às 24 h: 60% vs 15%; RRA 45%; NNT 3

         - Consistente por idade, tipo de AH, profilaxia longo-prazo, gravidade e localização (incl. laríngeas não-graves)

         » Mais Eventos adversos emergentes no tratamento até 3 dias: 15% vs 2%

          - Fadiga foi o único evento reportado mais de uma vez

         » Sem EAs graves ou relacionados com o tratamento / Sem suspensões por EAs

Comentário: O RAPIDe-3 é um ensaio bem construído para uma pergunta concreta: uma cápsula oral pode tratar uma crise de angioedema hereditário tão rapidamente como as opções de resgate já existentes? A resposta é que acelerou claramente o alívio sintomático face a placebo: mediana de 1.28 horas versus mais de 12 horas. Para uma doença em que o medo dominante é a crise laríngea e a progressão rápida, esta é uma diferença clinicamente relevante. Mas é preciso separar três coisas que o resumo tende a fundir: início de alívio, fim da progressão e resolução completa. O desfecho primário — “pelo menos um pouco melhor” — é um desfecho autorrelatado, subjectivo e relativamente baixo no limiar de melhoria. O resultado mais impressionante é a resolução completa às 24 horas: 60% vs 15%, com RRA de 45% e NNT de cerca de 3. Ainda assim, continua a ser uma avaliação pelo doente, num desfecho dependente da percepção individual. O desenho cruzado é uma vantagem: cada participante serviu de seu próprio controlo, reduzindo confundimento entre pessoas (“intraindividual”), mas as também cria uma questão de interpretação. A análise primária incluiu apenas 88 dos 113 participantes que trataram crises, ou seja, os que completaram ambas as sequências. A exclusão de participantes sem pares de crises tratadas pode introduzir viés de selecção (para doentes com AH menos grave / com menos ataques / não necessariamente menos grave e apenas coincidência), mesmo que o ensaio tenha sido bem executado. Além disso, uma crise pode ser mais fácil ou mais difícil de tratar do que outra, e a comparação entre crises do mesmo participante não elimina totalmente essa variabilidade. O placebo não é um controlo neutro para uma doença com crises naturalmente variáveis. O angioedema hereditário tem crises que podem durar horas ou dias e que, em alguns casos, melhoram espontaneamente. O resultado de “mais de 12 horas” até alívio no grupo placebo é compatível com a história natural, mas não permite saber quanto do benefício se deve à acção específica do fármaco e quanto à antecipação do alívio. Ainda assim, a magnitude e a consistência dos resultados tornam improvável que tudo se explique por efeito placebo. A segurança parece boa, mas o ensaio é pequeno para detectar eventos raros. Apenas 15% teve eventos adversos emergentes no tratamento, todos ligeiros ou moderados, e não houve eventos graves relacionados. Isto é tranquilizador, mas não é suficiente para excluir problemas raros, sobretudo num fármaco que será usado repetidamente ao longo de anos. A ausência de eventos adversos graves relacionados também não responde à questão mais importante em angioedema hereditário: o desempenho numa crise laríngea grave, com risco real de obstrução das vias aéreas. O ensaio incluiu crises laríngeas não graves, mas não é um estudo de primeira linha para uma crise laríngea potencialmente fatal. Nesse cenário, a prioridade continua a ser reconhecimento rápido, preparação para via aérea difícil e acesso a tratamento de resgate comprovado. Uma cápsula oral é muito mais conveniente, mas conveniência não substitui a segurança de uma via aérea comprometida. A comparação com os tratamentos disponíveis é essencial. O icatibant é um antagonista do receptor B2 da bradicinina, mas é administrado por via subcutânea, enquanto que o deucrictibant tem o mesmo alvo farmacológico, mas em cápsula oral. A vantagem potencial é evidente: autoadministração imediata, sem agulha, sem refrigeração e sem a dificuldade de injetar durante uma crise. Porém, o RAPIDe-3 não comparou deucrictibant com icatibant, C1-inibidor ou ecallantide. Portanto, não sabemos se é mais rápido, igualmente rápido ou menos eficaz do que as alternativas injetáveis. Também não é o primeiro tratamento oral de resgate: o sebetralstat, inibidor oral da pré-calicreína, já foi aprovado nos EUA para crises agudas de angioedema hereditário em pessoas com 12 anos ou mais. O deucrictibant acrescenta uma classe diferente — antagonismo directo do receptor B2 da bradicinina — e uma apresentação oral, mas a comparação relevante entre opções orais ainda não foi feita nurmm ECA. O financiamento foi da Pharvaris, fabricante do fármaco. Isso não invalida necessariamente o ensaio, mas explica a ênfase nos 11 desfechos secundários positivos e na mensagem de “primeiro antagonista oral do receptor B2”. A conclusão científica deve ser modesta: houve benefício versus placebo, com boa tolerabilidade;, mas não houve comparação direta com tratamentos de resgate actualmente recomendados.

Conclusão: O deucrictibant oral acelerou o alívio e a resolução das crises de angioedema, com boa tolerabilidade.


Infecciologia, Microbiologia & Antimicrobianos

n=500, não-inferioridade, aberto, 25 centros Reino Unido, Áustria, Alemanha, Portugal e Espanha, follow-up 12 meses

P — Infecção ortopédica com cirurgia curativa, incl. desbridamento/excisão de osso desvitalizado, remoção de material/prótese e antibiótico local

        Incluídos: osteomielite, infecção relacionada com fractura/material de osteossíntese, infecção protésica e infecções do pé diabético

        Excluídos: cirurgia não curativa, DAIR, desbridamentos repetidos, sépsis/endocardite e bactérias resistentes ao antibiótico local

I — Antibiótico sistémico durante ≤7 dias (mediana 6 dias)

C — Antibiótico sistémico durante ≥4 semanas (mediana 42 dias)

O 1º » NÃO-INFERIOR falência aos 12 meses: 11.1% vs 14.1%, dif. -3.0%; IC 95% −9.0% a 3.0% (margem 10%)

         - Resultado consistente na população ITT: RRA 2.4%; IC 95% −8.2% a 3.5%

         - Resultado consistente na população PPA: RRA 2.7%; IC 95% −8.8% a 3.4%

O 2º » Menos sintomas relacionados com antibióticos às 6 semanas: 17.2% vs 45.2%; RRA 28.0% / NNT 4

         » Menos sintomas aos 3–6 meses: 8.5% vs 20.4%; RRA 12.0% / NNT 9

         » Menos infecção por C. difficile: 0.0% vs 0.8%

         » Menor duração de internamento: 11.9 vs 14.8 dias; diferença −2.9 dias

         » Semelhante Qualidade de vida aos 12 meses

         » Igual/maior? Sobrevida aos 12 meses: 97.9% vs 96.3%, dif. de +1.6% / NNS 63 ?

Comentário: O SOLARIO responde a uma pergunta prática e frequente: depois de uma cirurgia ortopédica curativa, com remoção de tecido infectado e aplicação de antibiótico local, ainda precisamos de quatro ou seis semanas de antibiótico sistémico? Neste ensaio, não. Uma mediana de seis dias foi não-inferior a 42 dias para falência definitiva aos 12 meses, com menos sintomas atribuíveis aos antibióticos. O resultado primário é favorável à estratégia curta, mas convém usar correctamente a linguagem. O ensaio não demonstrou formalmente que seis dias sejam superiores a seis semanas, demonstrou primariamente que o esquema curto não foi pior por mais de 10%. A falência foi 11.1% vs 14.1%, e o limite superior do IC da diferença foi -3.0%, muito abaixo da margem de 10%, o que até pode significar superioridade com NNT de 33, e a não-inferioridade foi consistente nas análises por tratar e por protocolo (a última para muitos mais robusta em ensaios de não-inferioridade). É tentador falar em superioridade, mas o desenho, a margem e a análise foram de não-inferioridade, pelo que a conclusão deve permanecer não-inferioridade. Este resultado também não significa que antibióticos sistémicos sejam dispensáveis. Todos receberam tratamento sistémico no período peri-operatório e tratamento local com concentrações elevadas durante pelo menos quatro semanas. A intervenção foi «cirurgia curativa + antibiótico local + ≤7 dias sistémicos», não «cirurgia isolada». O benefício pode depender precisamente da remoção agressiva do foco, da estabilidade da ferida e do antibiótico depositado no local da infecção. A população é mais seleccionada do que a prática clínica haibutal: foram excluídos DAIR, cirurgia de controlo com intenção supressiva, desbridamentos repetidos, sépsis, endocardite e bactérias totalmente resistentes ao antibiótico local. Por outro lado, 85.3% tinham sido submetidos a múltiplas operações anteriores, 80.3% tinham pelo menos uma condição coexistente complexa e 18.3% necessitaram de reconstrução complexa de tecidos moles. Portanto, não é uma população de casos simples mas também não nos dá “autorização” para encurtar automaticamente a terapêutica em qualquer infecção ortopédica sem confirmar que a cirurgia foi verdadeiramente curativa e que foram administrados antibióticos locais (embora seja só uma suspeita, desconfio que o 1º ponto é que seja verdadeiramente relvante e que a antibioterapia local possa ser relevante…infelizmente ainda não temos evidência para ignorá-la). A margem de não-inferioridade de 10% merece uma nota crítica: é uma margem muito ampla - aceitar que a estratégia curta pudesse produzir até mais 10 falências por cada 100 doentes seria discutível. Felizmente, os resultados observados são tranquilizadores porque a diferença foi −3.0% e o limite superior de 3% bem abaixo da margem de 10%. Depois, o benefício de reduzir antibióticos foi bastante evidente. Às seis semanas, quase metade dos doentes do grupo de abt longa referia náusea, vómitos, diarreia, letargia, exantema ou outros sintomas potencialmente relacionados com tratamento, contra 17.2% no grupo curto, o que corresponde a cerca de um doente com sintomas evitados por cada quatro tratados com o regime curto. Houve também dois casos graves de C. difficile, ambos no grupo longo, embora o número seja demasiado pequeno para estimar correctamente uma diferença. Por último, a componente portuguesa merece destaque: o estudo incluiu o Porto Bone and Joint Infection Group, da ULS de Santo António/Hospital de Santo António. A prova que nós também conseguimos entrar neste mundo! Claro que há limitações: estudo aberto, escolha dos antibióticos sistémicos e locais deixada aos centros, exclusão pós-aleatorização de 22 doentes da população elegível e perda de seguimento de 2.3%. O desfecho primário foi, contudo, adjudicado por uma comissão cega para a alocação e os resultados foram consistentes nas várias populações analisadas. O seguimento de 12 meses também não exclui recaídas mais tardias, embora a maioria das falências clinicamente relevantes de uma cirurgia infectada ocorra antes disso.

Conclusão: Em adultos com infecção ortopédica cirurgicamente curada e abt local, ≤7d de abt sistémico bastam.


n=880, não-inferioridade (margem 5%), aberto, 5 hospitais públicos na Índia, financiamento público

P — Adultos com hepatite C crónica, sem cirrose, monoinfecção e sem tto prévio + exclusão de toxicodependentes, HD, VIH, etc

        Basal: idade mediana 35 anos, 52% mulheres

I — Sofosbuvir 400 mg/velpatasvir 100 mg PO 1×/dia durante 8 semanas

C — Mesmo tratamento durante 12 semanas

O 1º » NÃO-INFERIOR resposta virológica 12 semanas após tto em PPA: 98.8% vs 99.0%; dif −0.2%, IC 95% −1.9 a 1.5%

O 2º » Não inferior RVS12 em ITT: 93.5% vs 91.8%; diferença +1.7%, IC 95% −1.9 a 5.2%

         » Sem eventos adversos graves atribuídos ao fármaco ou suspensão em qualquer dos grupos

Comentário: Este é um bom ensaio de uma pergunta simples e útil: podemos retirar quatro semanas a um tratamento que já cura quase toda a gente? Nos doentes que completaram o tratamento e tiveram avaliação da RVS12, a resposta foi praticamente idêntica: 98.8% com 8 semanas versus 99.0% com 12. A não-inferioridade também se manteve na análise por intenção de tratar. Menos 28 dias de comprimidos por pessoa podem significar menos custos e maior capacidade de tratar doentes, particularmente em programas públicos de eliminação da hepatite C. Quanto à margem de 5%: mesmo que se considerasse lata, até houve superioridade numérica e IC bem longe da mesma, pelo que, mesmo com margem de 2%, teria sido não-inferior. A validade externa é a outra questão. Foram estudados doentes sem cirrose, sem tratamento prévio e com monoinfecção por VHC. O protocolo excluía, entre outros, pessoas que injectam drogas, doentes em hemodiálise e pessoas com VIH — precisamente populações importantes nos programas de eliminação. O ensaio não autoriza encurtar indiscriminadamente o tratamento em pessoas com cirrose, tratamentos antivirais prévios ou condições não representadas. O facto de ser aberto é menos preocupante para um desfecho laboratorial como a RVS12 do que seria para dor ou qualidade de vida, mas pode influenciar adesão e seguimento. Também é útil lembrar que já existe um regime pangenotípico de 8 semanas,o  glecaprevir/pibrentasvir, para muitos doentes sem cirrose e sem tratamento prévio. O RESOLVE não compara estes dois regimes, pergunta apenas se podemos manter sofosbuvir/velpatasvir, uma combinação amplamente usada, e encurtar a sua duração.

Conclusão: Hepatite C crónica sem cirrose e sem tratamento prévio, SOF/VEL 8 sem não-inf a 12 sem.


Neurologia

n=330, multicêntrico, aberto com avaliação oculta, 40 centros na China, janela 4.5–24 h, NIHSS ≥10

P —AVC isquémico por oclusão da artéria basilar, moderado-grave (encaminhados para centros de trombectomia)

I — Tenecteplase EV 0.25 mg/kg, máximo 25 mg, antes da trombectomia endovascular

C — Trombectomia endovascular isolada

O 1º » IGUAL independência funcional aos 90 dias, mRS 0–2: 30.3% vs 30.5%, RRA −0.18%, IC 95% −10.13 a 9.76%

- RR ajustado 0.92, IC 95% 0.67–1.25;

O 2º » Igual bom desfecho funcional, mRS 0–3: 40.0% vs 39.6%

         » Igual mortalidade aos 90 dias: 40.0% vs 42.7%; RR ajustado 0.98, IC 95% 0.77–1.26

         » Igual hemorragia intracraniana sintomática: 5.1% vs 4.0%; RR ajustado 1.22, IC 95% 0.43–3.43

         » Sem diferenças nos desfechos funcionais em subgrupos por idade, NIHSS, localização da oclusão ou tempo

Comentário: Em primeiro lugar, gostaria de relembrar que, embora já defendida em alguns sítios, a trombectomia de oclusão basilar não é tão linear como de vasos proximais de circulação anterior. Que eu saiba, de 4 ECAs principais, temos 2 positivos e 2 negativos. No AVC moderado a grave com tecido potencialmente recuperável e pouco risco de intervenção pode fazer sentido. Não vou comentar mais porque é outro tema. Posto isto, trombólise em doentes que farão ou fizeram trombectomia na janela >4.5 horas, e aqui assim mais linear, não é defendida nem indicada. Portanto, é mais um ECA com resultados nesse sentido.

Conclusão: TNK antes da TEV em AVCi c/ oclusão basilar há >4.5h não melhorou desfechos.


NORMAS DE ORIENTAÇÃO CLÍNICAS - GUIDELINES

Geral, Geriatria & Paliativos




ESTUDOS OBSERVACIONAIS

PRIMÁRIOS - SUB-ANÁLISE / COORTE / CASO-CONTROLO / INQUÉRITOS / A. ECONÓMICAS

IA

n=114 / 98 completaram, prospectivo de viabilidade, centro e braço único, EUA, 04-11 2025, financiamento Alphabet.

Introdução: Depois das vinhetas e dos doentes simulados, chega o teste com pessoas reais: pode uma ferramenta de IA conversar com o doente antes da consulta e produzir informação clinicamente útil? Aqui, a AMIE foi avaliada como ferramenta de preparação de consultas urgentes de cuidados primários, não como substituto autónomo do médico.

Métodos:

  • Adultos anglófonos, com consulta urgente por uma única queixa; interacção com AMIE até 5 dias antes da consulta.

  • Todas as conversas supervisionadas por médicos, preparados para intervir segundo critérios de segurança pré-definidos.

  • Transcrições e resumos disponibilizados aos médicos assistentes antes da consulta.

  • Desfechos primários: interrupções por segurança, qualidade da conversa avaliada por clínicos e experiência de doentes e médicos por questionários.

  • Sem grupo controlo e sem aleatorização.

Resultados:

  • 98/114 participantes completaram a interacção e a consulta.

  • Nenhuma conversa exigiu interrupção pelos critérios de segurança pré-definidos; os supervisores identificaram uma alucinação e acrescentaram informação clínica em cinco interacções.

  • Avaliações favoráveis em 87–100% dos casos nos 17 critérios clínicos e em 48–96% nos 16 critérios avaliados pelos doentes.

  • 60/98 consultas tiveram questionário médico preenchido; em 44 desses casos, o médico tinha revisto a transcrição antes da consulta.

  • Nesses 44 casos, os médicos consideraram a AMIE útil para preparação em 33/44 (75%) e referiram que poderia ter alterado o seu comportamento em 25/44 (57%).

  • Na avaliação diagnóstica adicional, o diagnóstico final estava entre as primeiras sete hipóteses da AMIE em 90% dos casos, entre as primeiras três em 75% e em primeiro lugar em 56%.

Comentários: Este é um passo mais interessante do que mais uma competição de vinhetas: doentes reais, queixas reais e integração num circuito assistencial real. Mas convém manter o nome do desenho à frente do entusiasmo: estudo de viabilidade, não ensaio de eficácia. Os próprios investigadores salientam que não foi concebido para demonstrar melhoria dos desfechos clínicos. “Zero interrupções por segurança” não significa “zero erros”, nem segurança demonstrada para utilização autónoma. A intervenção estudada foi AMIE com supervisão médica e consulta posterior, e houve uma alucinação identificada e cinco interacções com informação acrescentada pelos supervisores. Em 98 interacções, parece-me coisa pouca. O humano também não estava fora do sistema: fazia parte da intervenção. Retirá-lo exige nova avaliação, não apenas confiança no mesmo resultado. Também há uma distância importante entre “conversa bem avaliada”, “médico achou útil” e “doente ficou melhor”. Dizer que a IA poderia ter mudado comportamento não demonstra que mudou, muito menos que mudou para melhor. E os resultados de utilidade médica vêm de 44 casos com revisão prévia da transcrição, não dos 98 participantes que completaram o percurso. Quanto à acuidade, encontrar o diagnóstico numa lista de sete hipóteses é informativo, mas não equivale a acertar no diagnóstico principal ou a tomar a decisão certa. Sem comparação aleatorizada com cuidados habituais, fica por saber se a ferramenta reduz omissões ou, pelo contrário, introduz ancoragem, exames desnecessários e trabalho adicional. Na prática, a aplicação plausível é recolha estruturada de história e preparação da consulta, não “médico digital”. O próximo passo é comparar cuidados habituais com cuidados assistidos pela AMIE, medindo erros e atrasos diagnósticos, exames, referenciações, tempo clínico total, custos e danos. Financiamento pelo fabricante não invalida os resultados, mas torna a replicação independente especialmente importante. Até lá: passou um teste inicial de viabilidade; ainda não passou o teste de benefício clínico.

CASOS CLÍNICOS e SÉRIES DE CASOS

Doente crítico/urgente


POCUS

Caracterização Ultrassonográfica das Ondas ‘To-and-Fro’ com POCUS no Contexto do Serviço de Urgência | AMP


FOAMed


Imuno-mediadas

Mike Putman a por os Traços nos Ts da CAR-T nas doenças imunomediadas. Curiosamente, pouco depois deste ensaio, foram suspensos algum estudos por 3 mortes por s. hemofagocitário associado a CAR-T. Cautela! ...e evidência.



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